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sábado, janeiro 03, 2009

janeira, janeiras

tanto em Portugal como na Galiza, entendemos por "janeira" (subst.) a "lua de janeiro" e a "época de cio dos gatos". também se diz que por este mês os gatos "andam às janeiras" (subst. fem. pl.).

"janeiras" podem ser tamém os cânticos populares de Ano Novo. um deles é este:

natal dos simples (Zeca Afonso)

vamos cantar as janeiras
vamos cantar as janeiras
por esses quintais adentro vamos
às raparigas solteiras

vamos cantar orvalhadas
vamos cantar orvalhadas
por esses quintais adentro vamos
às raparigas casadas

vira o vento e muda a sorte
vira o vento e muda a sorte
por aqueles olivais perdidos
foi-se embora o vento norte

muita neve cai na serra
muita neve cai na serra
só se lembra dos caminhos velhos
quem tem saudades da terra

quem tem a candeia acesa
quem tem a candeia acesa
rabanadas pão e vinho novo
matava a fome à pobreza

já nos cansa esta lonjura
já nos cansa esta lonjura
só se lembra dos caminhos velhos
quem anda à noite à ventura

graf. altern. (Gz.): "xaneira", "xaneiras"

mas, como diz o povo, "esta minha gargantinha nom é fole de ferreiro", polo que raramente os cantadores cantam "de graça e a sêco". umas janeiras mais compostas costumam ter o ingrediente do apelo à generosidade dos ouvintes, para os objetivos mais variados. no caso seguinte trata-se das obras da igreja paroquial:


que tenha muita saúde (Carrêço, Viana do Castelo)

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar

ora viva lá, senhora,
sentadinha à lareira
chegue-se aqui à porta
não se esqueça da carteira

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar

boa noite gente bondosa
noutra terra não conheço
ajude a fazer as obras
na igreja de Carrêço

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar

muito obrigado senhores
que nos vamos retirar
prometemos com amizade
para o ano cá voltar

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar


o mais comum é que a generosidade solicitada reverta direitinha em favor dos cantadores:

levante-se daí, senhora,
do seu banco de cortiça
venha-nos dar as janeiras
ou de carne ou de chouriça.

viva lá o senhor João
cara de fino papel
chegam-se as moças a ele
como as abelhas ó mel.

viva lá o senhor António
raminho de bem querer,
traga lá a chave da adega
venha-nos dar de beber.

das janeiras que nos deram
será Deus o pagador.
queira Deus que para o ano
nos faça o mesmo favor.


imagem: blog.lusolyon.org

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