escritas e falares da nossa língua


Sexta-feira, Julho 17, 2009

retranqueiro (Gz. e Br.)

"retranqueiro" (adj.) significa "mordaz", "irónico", "malicioso no dizer"; "defensivo", "astuto" (Br.).

retranca (Pt., Gz. e Br.)

"retranca" (subst. fem.) significa "astúcia", "graça com segundas, terceiras ou mais intenções", "ironia", "mordacidade" (Gz.); "atitude defensiva", "reserva", "retraimento", "desconfiança" (Pt. e Br.); "pessoa pouco sociável, pouco comunicativa e tímida"; "certos aprestos e arreios que se usam pela parte traseira das bestas para as ferrar, segurar ou deter"; "verga usada no mastro da ré dos navios"; "tática e jogo defensivo em futebol" (Pt. e Br.).

Terça-feira, Julho 14, 2009

taipa (Pt., Gz. e Br.)

"taipa" (subst. fem.), do lat. vulg. tapia, é uma parede de barro misturado com pedrinhas, batido a malho ou pilão, apertado entre tábuas ou barrotes cruzados por fasquias com fiadas de tijolo ou de pedra entre a massa de barro, utilizada em casa de construção e depois rebocada e caiada, se for caso disso; adobe; tabique, taipal, tapume.



imagem: www.arq.ufsc.br


Segunda-feira, Julho 13, 2009

arume (Gz.)

"arume" (subst.) é a folha do pinheiro, tamém chamada caruma, faísca, frouma (Gz.), penica, pica, picanha (Gz.), pruma, pulaço (Gz.); aroma, fragância , arrecendo das folhas dos pinheiros.

Sexta-feira, Julho 10, 2009

abur! (Gz.)


"abur!", do euskera "agur!", significa "adeus!"

Segunda-feira, Julho 06, 2009

caletre (Gz.)

"caletre" (subst.) significa "talento"; " juízo", "discernimento", "tino"; "capacidade"; "cabeça" (fig.).

creto (Gz.)


"creto" (subst.) é forma sincopada de "crédito".
todo o creto está hoje em crise, e o da economia nom é o mais atingido.

Sábado, Junho 27, 2009

alvíssaras

"alvíssaras"(subst .fem.pl.), do árab. al-bixara, é o prémio dado ou prometido a quem entregar ao dono coisa perdida; interjeição com que dão ou saúdam as boas notícias (Gz. e Br.); boas notícias, boas novas (Gz. e Br.);ironicamente: castigo

Quarta-feira, Junho 24, 2009

lareira (Pt., Gz. e Br.)

do lat. lares, as almas ou espíritos dos antepassados da família.
"lareira" (subst. fem.) era a pedra sobre a qual se mantinha permanentemente aceso e limpo o fogo sagrado em honra dos antergos.
assim, a "lareira" tamém se chama "lar", "fogo", "fogão" ou "borralha".
símbolo por excelência da célula familiar, ou seja do "lar" ou casa, costuma-se dizer que uma terra tem 100 "fogos", por exemplo, querendo com isso indicar-se que tem 100 casas ou famílias.
à lareira se contavam as histórias de encantar e se estabelecia a ponte geracional entre avós e netos.
hoje em dia, as lareiras estão transformadas em meros elementos decorativos, se função nem simbolismo.
curioso o retorno da palavra "lar" à sua ligação com os nossos maiores, sob a forma de "lares da terceira idade".

Terça-feira, Junho 23, 2009

janela (Pt., Gz. e Br.)

"janela" (subst. fem.) é o diminutivo do lat. jana, que significa "porta", "passagem". é o mesmo que "portinha".
é curiosa a oscilação do conceito de "janela" nas línguas românicas: fenêtre (Fr.) e finestra (It.) que são irmãs da nossa "fresta"; ventana (Cs.), que significa "uma abertura por onde entra o vento ou ar".

estas diferenças testemunham tamém as variações do conceito, arquitetura e função das casas ao longo dos tempos e das geografias. a nós tocou-nos em sorte o conceito de "passagem", de abertura por onde se entra ou sai.
pela janela entram os sons do mundo e as vibrações da natureza.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

desleigado (Gz. e Br.)

"desleigado" (adj.) significa "desleal", "infiel"; "ingrato", "que esquece os favores recebidos"; "renegado", "desnaturado"; "esquecido", "desinteressado", "alheio", "apático" (Br.).



imagem e contexto: aqui

doadinho (Gz.)

"doadinho" ou "doado" (adj.) significa "fácil", "acessível", "que não exige muito esforço"; "proporcionado", "equilibrado"; "digno", "merecedor de elogio".


grafia altern: "doadiño".

choiar (Gz.)



"choiar" (verb.) significa "trabalhar", "laborar"; desenvolver qualquer tarefa marinheira.



fonte: Dicionário Estraviz

rechouchiar (Gz.)


"rechouchiar" (verb.) significa : gorgear, chilrear, trinar (os pássaros); alvoroçar, brincar ruidosamente (os miúdos); adular, lisonjear (fig.). (onomatop.).
na web significa utilizar o "twitter" (chilrear).



imagem: flor-docearoma.blogspot.com

Quarta-feira, Junho 10, 2009

rebaldaria (Pt. e Br.)

"rebaldaria" (subst. fem.) significa "grande confusão", "vale-tudo", "desordem", "anarquia"; "orgia" (fig.) .
de rebalde ou rabalde, formas aferéticas de "arrabalde".

é, pois, um testemunho linguístico das diferenças de lei e de ordem entre as al-medinas e os arrabaldes, entre viver dentro ou fora das muralhas.
altern: "rabaldaria".

Sexta-feira, Maio 29, 2009

ridículo (Pt., Gz. e Br.)

ridículo (adj.), do lat. ridiculu significa "aquilo ou aquele que provoca riso, troça, escárnio ou chacota". diz-se da atitude ou circunstância que, sendo natural, é levada ao exagero. cómico, grotesco. (fig.) de pouco ou nenhum valor, insignificante, mesquinho.

"prestar-se ao ridículo": agir de uma forma que provoca o riso, a chacota ou o escárneo.

o ridículo usa-se como arma de combate ideológico, escarnecendo do adversário ou inimigo para fazer crer que tudo o que ele diz ou pensa ou faz é ridículo. e com isso se poupa tempo e feitio em discussões e debates, em filosofias a gosto e argumentos inúteis. pode ampliar-se o uso do ridículo dizendo que determinada ação, opinião ou atitude não pode ser ridicularizada porque já de si é ridícula.

ridículo é qualquer chefe ou estadista deposto ou em vias de o ser, desde que não tenha potencial para mártir ou herói.

ridícula é toda a intimidade exposta ou vista pelo olhar dos outros.
já dizia Fernando Pessoa (melhor, Álvaro de Campos),

as cartas de amor são ridículas:

todas as cartas de amor são
ridículas.
não seriam cartas de amor se não fossem
ridículas.

também escrevi em meu tempo cartas de amor,
como as outras,
ridículas.

as cartas de amor, se há amor,
têm de ser
ridículas.

mas, afinal,
só as criaturas que nunca escreveram
cartas de amor
é que são
ridículas.

quem me dera no tempo em que escrevia
sem dar por isso
cartas de amor
ridículas.

a verdade é que hoje
as minhas memórias
dessas cartas de amor
é que são
ridículas.

(todas as palavras esdrúxulas,
como os sentimentos esdrúxulos,
são naturalmente
ridículas).

Sábado, Maio 23, 2009

barriga cheia, companhia desfeita

há certos simpósios científicos em que é servido almoço ou jantar de graça (*), enquanto desfila um naipe de sumidades e respetivo repertório. uma hora antes já tem fila de hora e meia, como se fora haver entrada livre para concerto dos Rolling Stones. mas, depois, a coisa fia de outro modo: a meio da sessão, comida a sobremesa, o pessoal esquece ao que foi e começa a debandada. porque barriga cheia não escuta ciência.

sobre "barriga cheia" há uma série de expressões que vale a pena registar:

barriga cheia, feijão tem bicho (Br.)
barriga cheia, goiabada tem mofo (Br.)
chorar de barriga cheia

........................................
(*) a coisa tem razão de ser. "simpósio" é uma palavra grega que quer dizer "beber em conjunto". aplicava-se ao costume grego de discutir matérias relevantes enquanto se bebia em conjunto.

Sexta-feira, Maio 22, 2009

você está aqui

"você está aqui"- dizem os mapas de rua.
mas os mapas de mão não dizem "você está aqui". a gente vira, revira, dobra, desdobra, pergunta, traduz e vira errado.
o jeito é andar de GPS.

Segunda-feira, Maio 11, 2009

ramboia (Pt., Gz. e Br.)


"ramboia" (subst. fem.) significa "divertimento", "boémia", "festa", "animação", "estroinice", "vadiagem". na raia de Ourense tamém significa(va) "contrabando com Portugal".



imagem: topaziodasolum.blogspot.com

Sexta-feira, Maio 01, 2009

maias, maios (Pt., Gz.)

festa antiquíssima, o maio celebra o fim do inverno e a sagração da primavera.
assim, um dos costumes associados aos maios ou maias é o de comer castanhas guardadas de propósito para este dia.

e com isso a castanha se associa ao início e ao fim do inverno.

dos costumes constava tamém, nuns lados, uma boneca de palha de centeio, em torno do qual se dançava toda a noite de 30 de abril para 1 de maio; noutros locais, uma menina de vestido branco coroada com flores e sentada num trono florido era prendada todo o dia com danças e cantares.
por detrás destas meninas, de palha ou de carne e osso, estava o costume, mais antigo, de levar as virgens ao bosque num ritual orgíaco - com o que se reverenciava a fertilidade e a vida.

a cristianização dos maios foi lenta e difícil, representada por inúmeras lendas que tentam explicar o costume e por disposições contraditórias das autoridades.
assim, por exemplo, no séc. VI, o papa Gregório Magno aconselhava algumas concessões ao paganismo: "não suprimais os festejos que aquelas gentes celebram nos sacrifícios que oferecem aos seus deuses; transladai essas festas para as efemérides dos santos mártires, a fim de que, conservando algumas grosserias e loucuras da idolatria, se predisponham de mais boa mente a apreciar as alegrias espirituais da fé cristã".
mas em Lisboa, uma Carta Régia de 14 de agosto de 1402, determinava aos juízes e à câmara que "impusessem as maiores penalidades a quem cantasse maias ou janeiras e outras coisas contra a lei de Deus".
apesar da quase completa destruição dos valores labregos nos tempos que correm, ainda é possível observar ramos de giestas em flor, ou coroas de giestas com outras flores e enfeites, nas portas e janelas das casas ou nos carros, na noite de 30 de abril para 1 de maio.
a industrialização viria a substituir a festa das maias, ou dos maios, pelo dia do trabalhador assalariado. e tamém esta festa foi alvo de uma tentativa de cristianização já decadente, sob a invocação de São José operário.

Quarta-feira, Abril 29, 2009

frio

uma friage do demo. vim até aqui ver Estocolmo sem neve.
ora parece primavera ora quem dera.
a luz a meio pau, nom chega lá em cima, como na minha terra.
estou farto. terra sem calor e sem luz por cima nom me agarra.

fico cos postais, pra ver depois. na praia, com um gelado na boca.
talvez então me saiba bem o frio.

Terça-feira, Abril 21, 2009

um bom conselho galego (refrão da Carnota)


nom te cases c'um ferreiro, que é mui malo de lavar,
casa c'um marinheiro, que xá vem lavado do mar.

Domingo, Abril 19, 2009

estar à pinha (Pt.)

a expressão "estar à pinha" aplica-se a um lugar, espaço público ou sala sobrelotados, apinhados de gente, cheios que nem um ovo, por vezes com gente que deseja entrar mas não pode, porque já não cabe.
assim, enquanto uns "estão às moscas", outros há que "estão à pinha".

assim sucede com este blogue: uns dias está à pinha, outros dias está às moscas.

estar às moscas (Pt.)

a expressão "estar às moscas" aplica-se a comércios, restaurantes, sessões ou eventos programados que não têm clientes, frequentadores ou participantes.
com a crise que vai por aí e as fortes medidas de higiene em vigor, alguns desses locais nem moscas tenhem.

marafado

o adjetivo "marafado" ouve-se muito frequentemente na região do Algarve (Pt.). significa "aborrecido", "chateado", "zangado", "amuado", "mal disposto".


imagem: tarelkin.deviantart.com

Sábado, Abril 18, 2009

sair ao lençol de baixo, sair ao lençol de cima

"sair ao lençol de baixo", "sair ao lençol de cima": estas expressões significam que alguém é parecido com a mãe ou com o pai, respetivamente. ouvem-se em Trás-os-Montes (Pt.).
perdoa-se-lhe a brejerice pela imaginação (ainda que conservadora quanto baste).

Quinta-feira, Abril 16, 2009

trocar

"trocar" (verb.) significa "permutar", "mudar uma coisa por outra", "mudar de roupa" (Br.), "substituir", "cambiar" (Gz.), "dar moedas mais pequenas por uma moeda maior, ou nota, de igual valor".

expressões associadas:
"trocar o certo pelo incerto"
"trocar as voltas": confundir
"trocar as bolas" (Br.): confundir. ver Comentº de Lengo d'Noronha
"trocar em miúdos": trocar uma nota ou uma moeda grande por moedas pequenas; fig: explicar detalhadamente; explicar de maneira que se entenda

Quarta-feira, Abril 08, 2009

o lobo no refraneiro galego-português e brasileiro

a fome faz o lobo sair do mato (Br.)
a mulher e a loba do mais feio se namoram (Gz.)
burro de moitos, comem-no os lobos (Gz.)
cair na boca do lobo (Pt., Gz. e Br.)

cando o lobo vai roubar, longe das casas vai-no buscar (Gz.)


come o lobo de toda a carne, menos da sua, que a lambe (Gz.)

cousa de moitos comem-na os lobos (Gz.)
dous lobos a um cám ben' o comerám (Gz.)
fai-te ovelha e comerá-te o lobo (Gz.)
fazer do lobo guardador de ovelhas (Br.)
lobo famento nom tem assento (Pt. e Gz.).
lobo não come lobo (Pt., Gz.)
meter-se na boca do lobo (Pt.)
o lobo perde o pêlo mas não a manha (Pt., Gz. e Br.)
onde o lobo busca um cordeiro acha outro (Pt. e Gz.)
ovelha de moitos comem-na os lobos (Gz.)
vaca de moitos, comem-na os lobos (Gz.)
filho de lobo lobinho é (Gz.)
quem não quer ser lobo não lhe veste a pele (Pt.)

lobo na pele de cordeiro

conta-se que, certo dia, o lobo se disfarçou com uma pele de cordeiro e assim conseguiu infiltrar-se no rebanho de ovelhas, fazendo-se passar por uma delas na aparência e no jeito de proceder. nessa situação, foi devorando tranquilamente, uma a uma, sem grande esforço.

assim, a expressão “lobo em pele de cordeiro” usa-se para caracterizar os que se fazem passar por gente correta para alcançar os seus objetivos interesseiros, desonestos e até ilegais. contra esse tipo de gente, todo o cuidado é pouco.

imagem:
www.umpensador.com.br

cortar na casaca

a expressão "cortar na casaca" significa "criticar por trás", "dizer mal da vida alheia", "falar da vida alheia", "murmurar a respeito de alguém", "fofocar", "fuchicar" (ver Comentº de Lengo d'Noronha).



imagem: www.revistadatribuna.com.br

Terça-feira, Abril 07, 2009

santinho de pau carunchoso

a expressão "santinho de pau carunchoso" refere-se a pessoas de aspeto sonso e coração velhaco, santinhos por fora e diabos por dentro, beatos cínicos; os "sepulcros caiados", de que falava Cristo; hipócrita; campeão da moralidade alheia.
altern: "santinho de pau ôco" (Br.)


caruncho


"caruncho" (subst.) é o "inseto que rói a madeira", o "pó da madeira roída"; "gorgulho dos cereais"; "velhice", "doença crónica própria da velhice"; "achaques frequentes".

Segunda-feira, Abril 06, 2009

o capuchinho vermelho

capuchinho vermelho, chapeuzinho vermelho ou caperuzita é um conto de hoje: o pai ausente e a mãe negligente e descuidada, que manda a filhota sozinha por caminhos perigosos e sombrios.

e, no fim, as armas resolvem.
bom, mas esta versão é o fim!

os três porquinhos (Gz.)

histórias de velhos saberes disfarçadas de contos infantis. os três porquinhos, o bosque, a aventura, a descoberta do mundo e os seus perigos. o minotauro na pele do lobo mau. no fim, a inteligência derrota a fera. e a vida continua.

desfrutem esta deliciosa versão do conto d' Os Três Porquinhos.

imagem: www.eb1-ferreiros-dao.rcts.pt

"...e colorim, colorado, este conto está rematado..."

Domingo, Abril 05, 2009

chus

"chus" (subst.) significa "ruído". exº: "não fazer chus nem mus": "não responder", "não dizer palavra", "não fazer o menor ruído".
"chus" (adv.) significa "mais". do lat. "plus".

chusma

"chusma" (subst. fem.) significa "tripulação ou equipagem de um barco"; "grande quantidade", "multidão", "magote", "maralha", "malta", "ralé".
exº: "uma chusma de livros", "uma chusma de gente".

do greg. kéleusma

Sexta-feira, Abril 03, 2009

mulheres e flores

pois claro, mulheres e flores. e ele há mulheres com nome de flor. umas são flores de verdade, outras não são flor que se cheire.
os homes, a acreditar no que oiço pola boca delas, era todos atados num molho e botados do Fisterra ó mar. marido morto, marido santo.
cousas de homes e mulheres.



Açucena
Amarílis
Camélia
Dafne ou Daphne - da flor do louro (do Grego). usado no Brasil.
Dália
Flor
Flora
Florbela - de "flor"+"bela"
Florência - o mesmo que "florescência"
Florinda
Gardénia - usado no Brasil
Glicínia
Guida (Pt.) - hipocorístico de Margarida
Hortense - o mesmo que Hortênsia
Hortênsia
Íris
Jacinta - femin. de "jacinto"
Laura - da flor do louro
Liliana - da flor do lírio
Magnólia - mais usado no Brasil
Margarida
Narcisa - femin. de "narciso"
Orquídia
Petúnia
Rita - hipocorístico de Margherita (It.)
Rosa
Violeta
Zínia



imagem: glauberataide.blogspot.com

Segunda-feira, Março 16, 2009

sabugo (Pt., Gz. e Br.)

"sabugo" (subst.) é "a medula do sabugueiro"; "o sabugueiro"; "a flor do sabugueiro"; "a parte em que a unha adere ao dedo"; "a parte interna do milho a que os grãos aderem"; "a parte interior menos dura dos cornos ou hastes"; "medula óssea de alguns animais (exº: o porco)"; "pénis" (fig.?).

Terça-feira, Março 10, 2009

amorrinhado

"amorrinhado" (adj.) significa "que está com morrinha", "abatido", "triste", "debilitado", "encolhido (por doença, tristeza ou saudade)", "saudoso", "melancólico", "mortiço", "morrinhento" (ver Comentº de Pablo).
altern: "amorroado" (Gz.), "morrinhoso" (ver Comentº de Pablo).

balbúrdia

"balbúrdia" (subst.) significa "vozearia", "grande confusão", "ruído", "tumulto", "alvoroço", "desordem", "bagunça".
altern: "balbordo" (Gz.).

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

aperrear

"aperrear" (verb.) significa ""arreliar", "assanhar", "enervar", "irritar", "apoquentar", "molestar"; "lançar os cães contra alguém", "assanhar os cães", "cansar", "desgastar", "estressar", "atrapalhar" (Br.).
derivado de "perro" (o mesmo que cão ou cachorro).


ver Comentº de Manuel Alves

Domingo, Janeiro 04, 2009

reis, reises ou reisadas

diz por aí boa gente que "janeiras" e "reis" são a mesma cousa. até já tenho lido que as "janeiras" são mais portuguesas e as "reisadas" mais galegas. não concordo nem com uma nem outra cousa. janeiras e reisadas há-as em Portugal, por vezes na mesma terra. na Galiza conheço ambas tamém.

e se, aparentemente, têm ingredientes comuns, desde logo o seu caráter sociabilizador e brincalhão, o apelo à generosidade do ouvinte e um certo fito interesseiro, a verdade é que nas "janeiras" não se fala de "reis" nem do "menino", nem do presépio ou lapinha.

uma das possibilidades de explicação é conceder às janeiras a primazia em antiguidade e um cunho eminentemente "pagão", o mesmo é dizer, admitir que os "reis", "reises" ou "reisadas" são a forma "cristianizada" das "janeiras".
os cantadores de "reis" são os "reiseiros", habitualmente gente moça e criança, que vão de arruada pola aldeia, sempre à noite.

aqui deixo alguns exemplos de "reisadas":

Vila Flor (Trás-os-Montes):

nós somos pastores da serra,
nós cantamos com amor,
queremos dar Boas Festas
ó povo de Vila Flor.

os três Reis do Oriente
já chegaram a Belém,
foram lá cantar os Reis
e nós cantamos tamém.

estes Reis que aqui cantamos
não são pagos com dinheiro:
são pagos com vinho fino
e chouriços do fumeiro.

Madeira:

viemos cantar os Reis
a casa desta vizinha,
faz favor de abrir a porta
queremos ver a lapinha

e vós bem sabíeis e vós bem sabeis
que no dia de hoje se canta os Reis.
e vós bem sabias e vós bem sabeis
que é do dia 5 para o dia 6

já vimos a porta aberta,
já vimos luz a brilhar,
perguntamos à vizinha
se dá licença de entrar.

ó senhor, abra-me a porta,
que tenho os pés à geada.
a gente somos só três,
a despesa não é nada.

ó senhor, abra-me a porta,
que tenho os pés ó sereno,
eu venho cantar os Reis
pelas palhinhas do feno.

ó senhor, abra-me a porta
que isto é só um pedacinho:
é somente para ver
se ainda há um licorzinho.

ó senhor, abra-me a porta,
esta noite é especial:
embora seja janeiro,
continua a ser Natal.

ó senhor abra-me a porta
e oiça com atenção:
fizemos esta visita
com amor e devoção.

ó senhor abra-me a porta
e acenda uma luzinha:
viemos cantar os Reis
e ver a sua lapinha.


pelo seu interesse para a compreensão destes cantaress e das diferenças que fazem entre si, boto aqui este enlace.


imagem: www.musicanova.ovar.info

Sábado, Janeiro 03, 2009

janeira, janeiras

tanto em Portugal como na Galiza, entendemos por "janeira" (subst.) a "lua de janeiro" e a "época de cio dos gatos". também se diz que por este mês os gatos "andam às janeiras" (subst. fem. pl.).

"janeiras" podem ser tamém os cânticos populares de Ano Novo. um deles é este:

natal dos simples (Zeca Afonso)

vamos cantar as janeiras
vamos cantar as janeiras
por esses quintais adentro vamos
às raparigas solteiras

vamos cantar orvalhadas
vamos cantar orvalhadas
por esses quintais adentro vamos
às raparigas casadas

vira o vento e muda a sorte
vira o vento e muda a sorte
por aqueles olivais perdidos
foi-se embora o vento norte

muita neve cai na serra
muita neve cai na serra
só se lembra dos caminhos velhos
quem tem saudades da terra

quem tem a candeia acesa
quem tem a candeia acesa
rabanadas pão e vinho novo
matava a fome à pobreza

já nos cansa esta lonjura
já nos cansa esta lonjura
só se lembra dos caminhos velhos
quem anda à noite à ventura

graf. altern. (Gz.): "xaneira", "xaneiras"

mas, como diz o povo, "esta minha gargantinha nom é fole de ferreiro", polo que raramente os cantadores cantam "de graça e a sêco". umas janeiras mais compostas costumam ter o ingrediente do apelo à generosidade dos ouvintes, para os objetivos mais variados. no caso seguinte trata-se das obras da igreja paroquial:


que tenha muita saúde (Carrêço, Viana do Castelo)

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar

ora viva lá, senhora,
sentadinha à lareira
chegue-se aqui à porta
não se esqueça da carteira

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar

boa noite gente bondosa
noutra terra não conheço
ajude a fazer as obras
na igreja de Carrêço

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar

muito obrigado senhores
que nos vamos retirar
prometemos com amizade
para o ano cá voltar

vimos cantar as janeiras
boas festas desejar
que tenha muita saúde
no ano que vai entrar


o mais comum é que a generosidade solicitada reverta direitinha em favor dos cantadores:

levante-se daí, senhora,
do seu banco de cortiça
venha-nos dar as janeiras
ou de carne ou de chouriça.

viva lá o senhor João
cara de fino papel
chegam-se as moças a ele
como as abelhas ó mel.

viva lá o senhor António
raminho de bem querer,
traga lá a chave da adega
venha-nos dar de beber.

das janeiras que nos deram
será Deus o pagador.
queira Deus que para o ano
nos faça o mesmo favor.


imagem: blog.lusolyon.org

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

serão

"serão" (subst.) é a parte da noite que vai da ceia à hora do deitar. reunião familiar noturna em redor da lareira depois da ceia. trabalho feito à noite, fora do horário de trabalho.
graf. altern: "serám" e serán (Gz.)

e sobre "serão" deixo aqui a letra de um belo canto alentejano:


pelo toque da viola


ó luar da meia-noite
não digas à minha amada
que eu passei à rua dela
às quatro da madrugada

pelo toque da viola,
já sei as horas que são.
inda não é meia-noite,
já passei um bom serão!
já passei um bom serão,
vai dormir vai descansar,
vai dormir vai descansar,
amor do meu coração!

suspirava por te ver,
já matei a saudade,
uma ausência custa muito,
a quem ama com verdade!

pelo toque da viola,
já sei as horas que são.
inda não é meia-noite,
já passei um bom serão!
já passei um bom serão,
vai dormir vai descansar,
vai dormir vai descansar,
amor do meu coração!

Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

tangolomango, tangomango, tranglomango, trangolomango ou trangomango

uma ou outra das variantes que se seguem é usada pelos falantes de Portugal, da Galiza e do Brasil.



subst., significa doença real ou imaginária produzida por um feitiço ou sortilégio, malefício das bruxas. coisa má, doença súbita ou prolongada de causa não reconhecida como natural.
"dar o tangolomango": morrer, desaparecer, sumir inexplicavelmente.



surge em algumas parlendas ou lengalengas populares, como essa aí do Brasil:



o tangolomango das irmãs


eram nove irmãs em casa
uma foi fazer biscoito.
deu o tangolomango nela
não ficaram senão oito.

destas oito que ficaram
uma foi amolar canivete.
deu o tangolomango nela
não ficaram senão sete.

destas sete que ficaram
uma foi falar francês.
deu o tangolomango nela
não ficaram senão seis.

destas seis que ficaram,
uma foi pelar um pinto.
deu o tangolomango nela
não ficaram senão cinco.

destas cinco que ficaram,
uma foi para o teatro.
deu o tangolomango nela
não ficaram senão quatro.

destas quatro que ficaram,
uma casou com um português.
deu o tangolomango nela
não ficaram senão três.

destas três que ficaram,
uma foi passear nas ruas.
deu o tangolomango nela
não ficaram senão duas.

dessas duas que ficaram,
uma não fez coisa alguma.
deu o tangolomango nela
e não ficou senão uma.

essa uma que ficou
meteu-se a comer feijão.
deu o tangolomango nela
e acabou-se a geração.


esta versão portuguesa, um tanto forçada na rima:


minha mãe teve dez filhos
todos dez dentro de um pote:
deu o tranglomango neles,
não ficaram senão nove.



desses nove que ficaram
foram amassar biscoito:
deu o tranglomango neles,
não ficaram senão oito.


desses oito que ficaram
foram pentear o tapete:
deu o tranglomango neles,
não ficaram senão sete.


desses sete que ficaram
foram esperar os reis:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão seis.


desses seis que ficaram
foram depenar um pinto:
deu o tranglomanglo neles,
não ficaram senão cinco.


desses cinco que ficaram
foram depenar um pato:
deu o tranglomango neles,
não ficaram senão quatro.


desses quatro que ficaram
foram matar uma rês:
deu o tranglomango neles,
não ficaram senão três.


desses três que ficaram
foram dar comida aos bois:
deu o tranglomango neles,
não ficaram senão dois.


desses dois que ficaram
foram matar um peru:
deu o tranglomanglo neles,
e não ficou senão um.


e esse um que ficou
foi ver amassar o pão:
deu o tranglomanglo nele,
e acabou-se a geração.




ou esta versão, mais moderna, de Maria Amália Camargo:

o tangolomango de Sinhá Mosca (fascículo completo)

eram treze moscas num sítio, uma ficou macambúzia
deu um tangolomango nela e então sobrou uma dúzia.
dessas doze, sinhá, que ficaram, uma tomou um bronze
deu um tangolomango nela e então sobraram onze.
dessas onze, sinhá, que ficaram, uma teve um revestrés
deu um tangolomango nela e então sobraram dez.
dessas dez, sinhá, que ficaram, uma amarrou o maior bode
deu um tangolomango nela e então sobraram nove.
dessas nove, sinhá, que ficaram, uma pousou num biscoito
deu um tangolomango nela e então sobraram oito.
dessas oito, sinhá, que ficaram, uma voou da charrete
deu um tangolomango nela e então sobraram sete.
dessas sete, sinhá, que ficaram, uma disse "sim, não, talvez"
deu um tangolomango nela e então sobraram seis.
dessas seis, sinhá, que ficaram, uma apertou o cinto.
deu um tangolomango nela e então sobraram cinco.
dessas cinco, sinhá, que ficaram, uma posou pr'um retrato
deu um tangolomango nela e então sobraram quatro.
dessas quatro, sinhá, que ficaram, uma esbarrou num genovês
deu um tangolomango nela e então sobraram três.
dessas três, sinhá, que ficaram, uma quis conhecer as dunas.
deu um tangolomango nela e então sobraram duas.
dessas duas, sinhá, que ficaram, uma caiu de bunda.
deu um tangolomango nela e tumba-catatumba!
essa uma, sinhá, que ficou, sentou em frente à televisão.
deu um tangolomango nela, acabou-se a geração!

e uma versão capixaba (i. e., do Estado do Espírito Santo, Br.):

uma velha tinha dez filhos, oi Iaiá,
foram brincar de automove
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram nove.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficaram nove

os nove filhos da velha, oi Iaiá
foram comer um biscoito.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram oito.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficaram oito

os oito filhos da velha, oi Iaiá
foram brincar de pintar o sete.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram sete.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficaram sete.

os sete filhos da velha, oi Iaiá
foram brincar na casa dos reis.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram seis.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficaram seis.

os seis filhos da velha, oi Iaiá,
foram lá pelar um pinto.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram cinco.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficaram cinco.

os cinco filhos da velha, oi Iaiá,
foram brincar dentro do quarto.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram quatro.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficaram quatro.

os quatro filhos da velha, oi Iaiá,
foram falar em francês.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram três.
morreu um, morreu um,
morreu, ficaram três.

os três filhos da velha, oi Iaiá,
foram comer muito arroz.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficaram dois.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficaram dois.

os dois filhos da velha, oi Iaiá,
foram comer muito tacum.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficou só um.
morreu um, morreu um,
morreu um, ficou só um.

este um filho da velha, oi Iaiá,
foi se meter com o urubu.
deu tango, deu mango neles, oi Iaiá,
morreu um, ficou nenhum.
morreu um, morreu um,
e a velha ficou sem nenhum...


finalmente, esta versão galega fornecida por Antón Cortizas (obrigado!), versão que reduzo à norma da AGAL, com as necessárias concessões etnográficas aos falares da Carnota:



o orangotango (Gz.):

uma nai tinha dez filhas,
todas do mesmo home,
e ven'o orangotango
nom quedano mais ca nove.
e das nove que quedano
deno em comer biscoito,
e ven' o orangotango
nom quedano mais ca oito.
e das oito que quedano
deno en tomar campeche,
e ven'o orangotango,
nom quedano mais ca sete.
e das sete que quedano
dénon’ir cantar os reis,
e ven'o orangotango,
nom quedano mais ca seis.
e destas seis que quedano
dénon’ir tomar vinho tinto,
e ven'o orangotango,
nom quedano mais ca cinco.
e das cinco que quedano
fono dar tombos de gato,
e ven'o orangotango,
nom quedano mais ca catro.
e das catro que quedano,
denon’ir a San' André,
e ven'o orangotango,
nom quedano mais ca tres.
e destas tres que quedano
denon’ir e vir às uvas,
e ven o orangotango,
nom quedano mais ca duas.
e das duas que quedano
denon’ir e vir à tuna,
e ven'o orangotango,
já nom quedou mais ca uma.
e da uma que quedou
sua nai deu-le as açoutas,
vai-te, minha filha, vai-te,
polo caminho das outras.

imagem: www.pacc.ufrj.br

tamém (Pt-n e Gz.)

"tamém" (adv.) é o mesmo que "também". forma sincopada, frequente no Norte de Portugal e na Galiza. significa "do mesmo modo", "igualmente", "além disso".

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

cesteiro que faz um cesto...

"cesteiro que faz um cesto faz um cento", diz o refrão. e com isso se quer dizer, habitualmente, que quem cometeu um erro é bem capaz de cometer outro, que quem nos traiu, ofendeu ou desiludiu, o pode tornar a fazer, ou seja, que "não há duas sem três".
sendo que "de boas intenções está o inferno cheio" e que "gato escaldado [até] de água fria tem medo", ficamos sempre na dúvida. daí que o refrão completo seja "cesteiro que faz um cesto faz um cento, dêm-lhe verga e tempo".


imagem: observares.blogspot.com

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

lubre (Gz.)


"lubre" (subst. fem.) era o bosque sagrado onde os celtas levavam a cabo os seus cultos, que tinham lugar à noite, ao luar.

badalhoco (Pt.), badalhocas (Gz.)

badalhoco (Pt) (adj.) significa "desajeitado", "desmazelado", "sem maneiras", "mal educado", "sujo", "porco", "imundo"; "que ou o que só faz porcarias". o termo é menos comum no Brasil.
badalhocas (Gz.) (adj.) diz-se da pessoa incorreta, sem maneiras, que não observa as formalidades; inconstante e charlatã.
embora haja quem faça vir estas palavras de "badalo", creio que a origem está em Badajoz, antiga Badalhouce e Badalioz. tal como outros adjetivos pouco simpáticos que se inspiram em pretensas caraterísticas do povo de outras cidades ou regiões por esse mundo fora. como "pulha" e "palerma", por exemplo.

Terça-feira, Dezembro 09, 2008

sem dizer água-vai

naqueles tempos, não tão distantes assim, não havia sistema de esgotos e de escoamento de águas. as pessoas livravam-se das águas usadas ou sujas jogando-as à rua, à vala ou cale pela janela, pela porta ou pela varanda. e, para evitar desgraças,ou incidentes desagradáveis, era de boa norma gritar alto, de jeito a que qualquer passante pudesse ouvir: "água vai!"


o procedimento tornou-se desnecessário, pois já quase todos temos água canalizada e ligação ao sistema municipal de esgotos e saneamento.
mas o espírito da expressão manteve-se. o seu fito é avisar, prevenir, precatar.
assim, "sem dizer água-vai" significa "sem avisar", "sem dar explicações".


imagem: aldacris.wordpress.com

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

de mãos a abanar

a expressão "de mãos a abanar" (Pt.) ou "de mãos abanando" (Br.) significa "de mãos vazias", "de mãos livres, sem nada", "sem nada nas mãos".
"estar de mãos a abanar": estar sem dinheiro, sem armas, sem recursos, sem soluções.
"ir ou chegar de mãos a abanar": não levar ou não trazer prenda ou lembrança ou não estar preparado para a retribuir.
"vir de mãos a abanar": vir sem nada de onde seria suposto que se trouxesse alguma coisa ou resultado.




imagem: mrobalinho.space.live.com

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

guisa (Pt., Gz. e Br.)

"guisa" (subst. fem.) significa "modo", "maneira", "feição", "procedimento"; "qualidade", "motivo", "razão". do germ. "wisa". usado em Portugal e no Brasil sobretudo na loc. adverbial "à guisa de": "em jeito de". na Galiza tamém (*) "em guisa de": de tal modo; "em outra guisa": de outro modo; "em toda guisa": de qualquer modo; "sem guisa": sem razão, sem motivo.

....................
(*) Dicionário Estraviz

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

tricana


"tricana" (subst. fem.) é uma espécie de burel antigo, tecido grosseiro de lã; saia desse tecido; moça do povo, camponesa, que usava esse tipo de saia e de tecido; diz-se das antigas moças e mulheres de Coimbra e do distrito de Aveiro (Pt.).


figura do folclore estudantil de Coimbra, era a moça ou mulher não estudante, motivo de paixonetas, baladas e fados.

imagem: www.aac.uc.pt

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

futrica

"futrica" (subst. masc.) significa, no léxico estudantil de Coimbra, "aquele que não é estudante", "aquele que não pode usar capa e batina nem submeter ou ser submetido à praxe académica".
"andar à futrica": andar vestido sem o traje académico, vestir à paisana.

significa, ainda, "homem desprezível", bandalho"; "cobarde", "medroso", "fraco" (Gz.); "mexerico", "intriga" (Br.).

Terça-feira, Novembro 04, 2008

candongueiro

"candongueiro" (subst.) significa "adulador", lisonjeiro", "falso", "impostor", "mentiroso". em Portugal é tamém o "contrabandista"; "o que vende coisas no mercado negro".

candonga

"candonga" (subst. fem.) significa, na Galiza, "a mulher que finge carinho", "enganadora", "falsa", "mulher da (má) vida", "a que faz comércio com o sexo". em Portugal, e no Brasil designa a "lisonja enganadora", o "falso carinho"; mais correntemente, designa o "contrabando", o "comércio ilegal", a "economia paralela". exº. "comprei este relógio na candonga"; "já se vende bilhetes na candonga para o jogo Benfica-Porto"; "as vanetes que fazem transporte ilegal de pessoas, em Angola; a atividade de transporte ilegal de pessoas.
a palavra é de origem africana, de língua banto, que significaria "esperto", "astuto", "ardiloso".

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

candango (Br.)

"candango" (subst.; adj.) é palavra de origem africana, levada para o Brasil pelos escravos negros de fala quimbunda. por "candango" queriam significar "ruim,", "mau", "malvado", "ordinário", pelo que usavam o termo para se referirem aos donos dos engenhos de cana de açúcar onde trabalhavam.

passou a aplicar-se também ao trabalhador braçal, o servente de construção, aquele que usa mais a força que a cabeça. ouvi também dar-lhe o significado de rústico, de natural da terra, sobretudo para designar portugueses e galegos - os europeus que primeiro povoaram o Brasil e, por isso, eram os "naturais" por oposição aos imigrantes mais recentes. posteriormente, o termo "candango" passou a usar-se para designar as pessoas do norte e do nordeste que migraram ao Planalto Central para trabalhar nas obras de construção de Brasília, quase todos eles com origem remota no norte de Portugal ou na Galiza.
o contributo dos "candangos" para a construção da utopia brasiliense fez com que o termo passasse a designar correntemente os próprios habitantes de Brasília, em paralelo com a designação mais erudita "brasilienses".

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

lareto (Gz.)


"lareto" (adj.) é o mesmo que "lareta", "aquele que fala demais", "falador", "aquele que nom é capaz de guardar um segredo", "língua de trapos", "indiscreto"; "intriguista"; descarado", "desavergonhado".

passou o dia, passou a romaria (Pt. e Gz.)

com esta expressão quer-se dizer que "já é tarde para voltar atrás", que "já nom é possível agir de outro modo", que um dado problema, projeto ou questão "passou à história".

Terça-feira, Outubro 28, 2008

fagueiro (Pt., Gz. e Br.)



"fagueiro" (adj.) significa "acariciador", "aquele que atrai com doçura e suavidade", "meigo", "agradável", "aprazível".





e agora, de Zeca Afonso, "Menino d'Oiro":

o meu menino é d'oiro
é d'oiro fino
não façam caso
que é pequenino

o meu menino é d'oiro
d'oiro fagueiro
hei-de levá-lo
no meu veleiro

venham aves do céu
pousar de mansinho
por sobre os ombros
do meu menino

venham comigo venham
que eu não vou só
levo o menino
no meu trenó

quantos sonhos ligeiros
p'ra teu sossego
menino avaro
não tenhas medo

onde fores no teu sonho
quero ir contigo
menino d'oiro
sou teu amigo

venham altas montanhas
ventos do mar
que o meu menino
nasceu p'ra amar

venham comigo venham
que eu não vou só
levo o menino
no meu trenó

estugar (Pt., Gz. e Br.)

"estugar" (verb.) significa "acelerar", "apressar", "apertar", "aligeirar"; "estimular", "incitar", "instigar".
"estugar o passo": "acelerar o passo", "andar mais depressa".

ir de cavalo pra burro

a expressão "ir de cavalo pra burro" ou "passar de cavalo pra burro" significa "ficar pior do que se está", "trocar o que se tem por cousa pior", "mudar para pior", "descer de categoria".

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

estribeira (Pt., Gz. e Br.)

"estribeira" (subst. fem.) significa "estribo de montar", "estribo ou degrau do carro", "correia da qual se penduram os estribos".
expressão associada: "perder as estribeiras": perder o controle, perder a paciência, desnortear-se.

lenda de são pedro de rates

São Pedro de Rates é uma freguesia do concelho da Póvoa de Varzim (Pt.). segundo a lenda, o santo patrono, Pedro, terá sido um dos sete bispos peninsulares ordenados pelo apóstolo Tiago, que lhe teria atribuido a diocese de Braga.

segundo a lenda, Pedro curou uma princesa acometida de doença fatal. em reconhecimento do milagre, a moça não só se converteu ao cristianismo como fez voto de castidade, o que gerou a ira do pai e a inevitável sentença de morte para quem a tinha curado. avisado, o santo refugiou-se em Rates, mas foi aí descoberto e executado. sepultaram-no sob as ruínas do pequeno templo onde tudo acontecera. o templo foi desaparecendo com o tempo e com ele a memória do local da sepultura. mais tarde, de um monte próximo, o eremita São Félix, Fins ou Fiz, enxergou uma luz na escuridão. dirigiu-se a um montículo de pedras de onde provinha a luz, removeu-as e debaixo delas atopou o corpo de Pedro.

teria alguma razão o irado pai da princesa, pois que Rates estava ligada ao culto da fertilidade e não da castidade. para conseguirem alcançar, as mulheres estéreis tinham por costume sentar-se numa pedra furada que havia por ali. e no templo românico de Rates ainda hoje se vê uma serpente esculpida numa das pedras resgatada do templo pagão anterior.
o culto do santo manteve a antiga tradição. há por lá mulheres grávidas que ainda se abstêm de toda e qualquer atividade no dia 26 de abril, o dia do santo. e entre o vivo até às fêmeas prenhas não convém que façam esforços nesse dia.

lenda do galo de Barcelos

esta lenda é uma das muitas do ciclo jacobeu ouvidas na região litoral a norte do rio Douro, como Matosinhos, S. Pedro de Rates, Barcelos e S. Bartolomeu do Mar. do seu conteúdo extrai-se um miolo composto de galo ou galego (celta), peregrinação, cruzamento ou encruzilhada (cruz, cruzes), morte e ressurreição (conteúdo iniciático). em suma: o peregrino faz a sua caminhada interior, debate-se com as encruzilhadas, sobressaltos e perigos do caminho, morre para o seu passado e ressuscita sob uma personalidade renovada.
no plano da etnografia e do artesanato, o "galo" de Barcelos é um galo preto, como aquele que é levado em oferenda a S. Bartolomeu do Mar. simplesmente, de tão ornamentado para os deuses, parece um galo multicolorido. mas se repararmos nos intervalos das ornamentações, lá está o negrume das suas penas. o galo preto está muito associado à bruxaria, que é como quem diz ao paganismo.

pois reza a lenda que numa albergaria ou pousada pelas bandas de Barcelos (uma das muitas encruzilhadas de caminhos para Santiago), onde se juntava gente de muita e desvairada condição, um peregrino que seguia o Caminho de Compostela viu-se acusado de um grave crime. apesar de protestar a sua inocência, as provas convergiam todas para a sua culpa, tendo sido condenado à morte por enforcamento. no dia da execução fazia-se uma festa em redor de um vistoso galo assado. no momento de lhe porem a corda em volta do pescoço, o peregrino gritou: assim eu esteja inocente como esse galo cantará três vezes! e o ordálio cumpriu-se, o galo morto e assado cantou três vezes e o peregrino pôde seguir em paz o seu caminho.
esta lenda (iniciática) é afim de outras que se ouvem em diversos pontos dos caminhos (geográficos) que conduzem a Santiago de Compostela. uma versão desta lenda é a de Santo Domingo de la Calzada.

Domingo, Outubro 26, 2008

parolo (Pt. e Br.)

"parolo" (subst. e adj.) significa "rústico", "trengo", "saloio", ""patêgo", pessoa que não tem hábitos, gostos, refinamentos ou maneiras urbanas"; "novo rico" (fig.). etimologicamente, é "o que fala muito". de "parola", palavra, voz articulada.

Sábado, Outubro 25, 2008

esperto

"esperto" (adj.) é aquele que está "desperto", "ativo". o mesmo que "astuto", "diligente", "hábil", "vivaço".

há tamém o "chico esperto", "o maior", aquela personagem irritante que se julga mais esperto que o outros e que procura de modo fácil e rápido, e muitas vezes irregular, atingir aquilo que aos outros leva tempo, trabalho e canseira.

degredo (Pt., Gz. e Br.)

do lat. decretu ("decreto"), degredo é a pena de desterro ou expatriação imposta por decreto judicial ou por pessoa ou autoridade com poder ou competência para "decretar". pode advir em castigo de um crime ou por medida de segurança do rei, do príncipe ou do estado. é tamém o lugar onde é cumprido o degredo.

a crer nos que acham que fomos postos neste mundo por castigo de deus, nós somos "os degredados filhos de Eva".

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

andar de candeias às avessas

dizer que duas pessoas andam "de candeias às avessas" significa que andam de afetos desencontrados, que estão de mal, desentendidos, zangados, ou mal-entendidos. mas a verdade é que, nestas cousas de afetos, "nom há mal que sempre dure nem bem que se não acabe".

mais velho que andar a pé (Gz.)

a expressão significa "muito velho", "muito antigo", "antiquissimo". é ainda mais expressiva que a outra, equivalente: "mais velho que a sé de Braga". porque muito antes de haver sé, já os de Braga andavam a pé.

passar-lhe a mão pelo pêlo

a expressão significa "acariciar, ninar, fazer festas, mariquices ou manifestações de apreço por alguém com intenção de lhe sacar favores ou fidelidades". cousa de pouca dura, é um estratagema muito usado na política e nos negócios. (o da foto já nom funciona tão bem).

Quinta-feira, Outubro 23, 2008

sabe mais o demo por velho que por demo (Gz.)


ou seja, o diabo sabe mais por ser velho que por ser diabo. com esta expressão pretende-se dizer que o saber mais depressa vem da experiência que do título, fama ou condição.

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

garula (Gz.)

"garula" (subst. fem.) significa "conversa inútil", "paleio de chacha" (cal.), "palavreado"; "verborreia"; "algazarra"; "reunião de gente para comer e beber"; ""vozearia de pássaros ou pessoas reunidas"; "as verduras que fazem a parte principal do caldo".

a quem deus nom lhe dá filhinhos, o demo lhe caga sobrinhos (Gz.)

este inimitável refrão casa-se com um outro, tamém galego: "gasta em festas e vinho o que tenhas que deixar ós sobrinhos".
querem ambos chamar a atenção para a praga de sobrinhos que se abate sobre quem morra solteiro, de preferência rico.

dá deus as nozes a quem não tem dentes

a expressão significa que não falta quem tenha oportunidades que não sabe ou não tem condições de aproveitar.
apesar de tudo, é uma expressão estranha, já que até os do paleolítico sabiam partir as nozes antes de lhes comer o miolo.

certo é que a expressão se aplica, por exemplo, tanto ao papa a quem ofereceram um ferrari, como ao velho decrépito que casou com mulher nova.

e, já agora, a inversa tamém é verdadeira: dá deus os dentes a quem não tem nozes. simplesmente, apesar de verdadeira, esta última proposição não faz refrão.

bom, é claro que, como dizem os amigos brasileiros, "deus dá as nozes, mas não as quebra".

Segunda-feira, Outubro 20, 2008

o que tu sabes já a mim me esqueceu

oiço esta expressão em certos meios populares, no sentido de "ainda tens muito que aprender", "para saberes o que eu sei ainda tens muito que andar", "estás muito verde", "ainda só sabes o básico".

às vezes, a expressão completa fica assim: "o que tu sabes já a mim me esqueceu há muito".

o lobo mau

o "lobo mau" é apresentado como o lado sombrio do simbolismo do lobo. ligado às florestas, como uma das manifestações dos espíritos que as habitam, costuma ser representado como o guardião do tempo, de tudo o que existe para além da vida.

por isso, um dos avatares de Zeus é Lykaios, o lobo, aquele que vê para além do dia e da noite, da vida e da morte, mais sábio que a multidão dos mortais.
e de lykaios derivou "liceu", palavra associada às artes, ao ensino e à aprendizagem pós-básica.
a goela do lobo é a noite devoradora que engole o tempo e, com ele, todas as coisas que a Avozinha, a Grande Mãe Natureza, vai gerando e parindo, umas atrás das outras. devassa e fértil, ela é a parceira de Cronos, com quem partilha o destino de gerar e comer as próprias crias, as Grandes Filhas, ou netas da Criação.
como símbolo, o Lobo Mau é de uma prodigiosa ambivalência: todas as crianças se amedrontam e fascinam com o Lobo Mau. por detrás do lado sombrio e mortal do seu aspeto feroz, esconde-se a irresistível sedução dos impulsos e instintos que conduzem à vida. nom há Capuchinho Vermelho que resista.

Domingo, Outubro 19, 2008

quanto maior é a nau maior é a tormenta (Pt., Gz. e Br.)

expressão própria de povo que faz ou fez do mar a sua estrada habitual, significa que quanto mais rico ou mais elevado se está na escala social mais problemas se tem pra gerir ambas as cousas.
aparece tamém sob a forma "grande nau grande tormenta".

porém, ao invés da expressão afim "quanto mais alto se sobe maior é o tombo", não exprime nenhum preconceito negativo, pejorativo ou pessimista em relação a ser-se mais rico ou mais diferenciado.

Terça-feira, Outubro 14, 2008

sucata (Pt., Gz. e Br.)

"sucata" (subst. fem.) significa "ferro-velho", "velharia";
"cemitério de automóveis".
quanto aos carros, hoje a tendência é para os prensar e transformar em bonitos cubos, que imitam certas esculturas que povoam rotundas e praças. porque em cada era os seus mitos.
ao contrário dos lixos, que nom tenhem qualquer valor comercial, a sucata é um negócio rentável.

Estraviz regista o termo e com o mesmo significado.

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

apalpar

"apalpar" (verb.) significa "conhecer com as mãos", "tentear com o tato"; "tatear", "sondar" (fig.). faz-se para completar a vista ou para suprir a falta dela.
dá-nos conhecimento da forma, dimensão, volume, textura, temperatura e conteúdo da coisa apalpada. no plano das relações humanas, tanto pode constituir um abuso ou grosseria como ser uma manifestação de prazer, de carinho, de ternura, de amor ou de paixão.

convém juntar-lhe um cheirinho de malícia.
...mas apalpar alma de gente quem se atrever que tente.


expressões associadas:
"apalpar o terreno" - tentear um caminho; sondar uma sensibilidade, uma disposição, ou recetividade de alguém para conosco.
"sentir-se apalpado" - sentir-se apertado, apanhado, constrangido, pressionado ou condicionado.
"andar às apalpadelas" - andar sem referências seguras, progredir cautelosamente, por tentativas.


[imagem]

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

levar com um gato morto na testa até ele miar


é o que merece quem nos incomoda coa sua estupidez ou quem faz uma asneira imperdoável.



sopas de cavalo cansado

"sopas de cavalo cansado" era uma mistura de vinho, pão e açúcar que se dava às crianças do campo à guisa de pequeno almoço. a intenção era fornecer-lhes uma bebida tónica e energética que enganasse a pobreza.


o mesmo que "sopas de burro cansado" (ver Comentº de LQB)

[imagem]

as paredes têm ouvidos

com esta expressão costuma-se querer dizer que alguém pode ouvir a conversa, pelo que todo o cuidado com os segredos será pouco. o pior é que muitas vezes os ouvidos estão mais perto de nós do que a parede




Quarta-feira, Outubro 08, 2008

segredo (Pt., Gz. e Br.)

"segredo" (subst.) é uma coisa, assunto ou matéria de melindre e de sigilo, que só se conta aos melhores amigos - que, por sua vez, só a contam aos melhores amigos deles. polo que o segredo se vai desfazendo por si mesmo, sem grande prejuizo.
mas alguns segredos são valiosos e, se entram em ouvidos que ouvem mas nom falam, dão de comer à chantagem.

polo sim polo não, melhor é nom deixar segredos à solta por aí. e melhor ainda é nom ter segredos.




imagem: cartoonices.wordpress.com

tortilha à francesa

certo dia, em viagem de León pra Ponferrada, coa barriga a doer de tanto dar horas, parámos para almoço. entre quem me acompanhava havia uma que sabia tudo e nom precisava da opinião dos outros. já estava a ficar farto: cousa que ela achasse que sabia, embicava para ali.
bom, sentámo-nos à mesa e trouxeram o cardápio: merluza, ternera, cordero, enfim, aquelas cousas que são habituais de servir nos restaurantes de lá. a tal sumidade, senhoreca fina, topou uma iguaria no menu: "tortilla a la francesa". naquela cabecinha fumegava já uma cheirosa delícia gastronómica, digna do melhor gourmet.
inda tentei a minha sorte: - não quer provar outra coisa? ... talvez...
que não, tortilla a la francesa estava muito bem. era o que lhe estava mesmo a apetecer.
passado aquele tempo entre pedir e comer, chegou o garzón. e depositou no centro do prato da senhora uma apetitosa omelete de ovo, sem mais nada.
de cara espantada, perguntou-me:
- mas eu mandei vir uma "tortilha à francesa"...
- aí a tem... e que bom aspeto!...

mamá, que me trai da feira? (Gz.)


esta expressão é um achado:
"- mamá, que me traz da feira? - o caminho para andar, meu filho".





imagem: Evening Glory, John Langley

ensinar o pai a fazer filhos (Pt. e Gz.)




esta expressão (eufemística?) é equivalente a "ensinar o padre-nosso ao vigário". significa que alguém quer dar lições a quem sabe mais que ele.
já por cá tenho ouvido uma versão mais vernácula.

perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe (Pt., Gz. e Br.)


expressão muito oportuna nos tempos que correm, em que prometem saúde e anos vida por vivê-la desenxabida.

Terça-feira, Outubro 07, 2008

nom se ganhou Zamora numa hora (Gz.)

esta expressão, que se encontra noutros lugares e idiomas da península, é equivalente de "Roma e Pavia não se fizeram num dia". significam ambas que "tudo leva o seu tempo".

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

vieiro (Gz.)



"vieiro" (subst.) é o mesmo que "caminho, "senda", "sendeiro", "vereda", "carreiro", "via", "sulco" (agricult.). o mesmo que "vieira" (topon.).

vozes de burro não chegam ao céu

a expressão "vozes de burro não chegam ao céu" costuma aplicar-se a quem nos deseja mal ou profere imprecações ou maldições contra nós, ou a quem diz alguma cousa infundada ou gratuita com intenção de nos ofender ou melindrar.
expressões alternativas: "as oraçóns do burro nom chegam ao céu" (Gz.); "palavras de burro nom chegam ao céu" (Gz.).

assulagar ou sulagar (Gz.)

"assulagar" ou "sulagar" (verb.) significa "pôr debaixo de água", "inundar", "submergir", "mergulhar", "alagar", "chover muito".

marinheiro galego, labrego do azul

gosto deste poema, escrito por um home da terra e do mar:


home de mar, marinheiro;
labrego do azul.
home sem tempo, poeta.

vieiros infindos os teus
que levam a inconcruir as cousas,
...sonhos os teus absolutos.

viver assulagado o teu
dum azul infindo e de
saudade.

lembrança e esp'rança
principio e fim das tuas
cousas,
... sonhos os teus absolutos.

home de mar, marinheiro;
labrego do azul.
home sem tempo, poeta.


(Alfredo Conde, poeta galego)

//poema revertido à norma AGAL//

Domingo, Outubro 05, 2008

cando o cám ladra vem gente...




...pelo que, ladrando o cão,
"ou vem gente
ou o cám mente". (Gz.)

essa é farinha de outro saco (Pt., Gz. e Br.)

a expressão "ser farinha de outro saco" significa que se trata de outro assunto, outra questão, de algo que nom vem ao caso em apreço. ou, então, que é artigo de outra categoria, que se trata de outra coisa, de outra realidade, que uma cousa nom é o mesmo que a outra.


a expressão contrária, "ser farinha do mesmo saco", significa que duas alternativas são a mesma coisa, que não há diferença entre elas, venha o diabo e escolha.

esse grao nom to [cho] moeu o teu moinho (Gz.)


com esta expressão, de fina ironia, quer-se dizer que uma ideia ou teoria está acima da cultura ou capacidade de quem a expõe.

cala a boca e nom digas nada, que as tuas verdades som parentes das minhas mentiras (Gz.)



com este dizer se insinua, na riquíssima expressividade dos galegos, que quem fala é um rematado mentiroso.
que "as tuas verdades são como as minhas mentiras" tamém já o ouvi da banda de cá.

Sábado, Outubro 04, 2008

juntar-se a fome com a vontade de comer




a expressão "juntar-se a fome co'a vontade de comer", ou "juntar-se a fame à gana de comer " (Gz.) significa juntar-se dois desejos, interesses ou forças que se potenciam ou completam.

alaba-te coitelo, que a vender- te [-che] levo (Gz.)

este dito ou expressão é irmão gémeo daqueles outros: "gaba-te cesto, que amanhá vais à vindima", "alaba-te [-che] boi, que a vender te [che] levam (Gz.), "alaba-te [-che] mantelo, que a vender te [che] levo" (Gz.) e "alaba-te [-che] cám, que te [che] vais casar 'manhã" (Gz.).
ou me engano muito ou querem todos dizer que julgue-se um home o que se julgar, segue o caminho que tiver de andar.

Terça-feira, Setembro 30, 2008

cair em saco roto

a expressão "cair em saco roto" usa-se para dizer que algo que se faz ou diz não tem impacto, "entra por um lado e sai por outro".
exº. "todos os avisos caíram em saco roto".
pelo contrário, se "não cai em saco roto", quer dizer que fica retido, que não fica sem memória ou sem consequências.

no dia de São Nunca, à tarde


a expressão "no dia de S. Nunca, à tarde" indica que um determinado acontecimento ou desejo é previsivelmente impossível de realizar, ou não temos vontade que se realize.


exº: "casarei contigo no dia de São Nunca, à tarde"; "vamos agendar isso para o dia de São Nunca, à tarde".
expressão equivalente: "quando as galinhas tiverem dentes".

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

ribanceira (Pt., Gz. e Br.)


"ribanceira" (subst. fem.) significa "escarpa", "margem do mar, de um rio ou de um lago, cortada a pique", "margem ou rampa íngreme, "precipício", "despenhadeiro".
ribanceira é uma coisa de onde muita cousa cai: ou caiam cousas de cima ou caiam coisas lá abaixo.




muita gente sonha com precipícios e ribanceiras. o que esses sonhos tenhem de bom é que a gente acorda meio metro antes de chegar ao fundo.

de primeira apanha

a expressão "de primeira apanha" significa "de primeira escolha", "de primeira qualidade", "de primeira água". muitas vezes é usada no sentido irónico para situações, qualidades ou estatutos pouco invejáveis. exº: "o Fernando é um preguiçoso de primeira apanha"; "o Luís é um mentiroso de primeira apanha".

Domingo, Setembro 28, 2008

puxar a brasa à sua sardinha




além de dar informações óbvias sobre a dieta popular, a expressão "puxar a brasa à sua sardinha" ou "chegar a brasa à sua sardinha" significa "tratar dos seus interesses", "aproveitar toda a ocasião ou ensejo para realizar os seus intentos", "ser egoísta".






e vejam aí esses versos:

"cada um tenta puxar a brasa à sua sardinha"

é antigo esse ditado,
que tem certo fundamento,
pra se fazer julgamento
do seu significado,
o qual tem sido aplicado
da forma que se alinha,
pois o homem se encaminha
para se locupletar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

cada um por si e Deus
por todos, outro ditado,
para ser analisado
por ilustres e plebeus,
evangélicos e ateus,
qualquer um que se sublinha,
essa citação eu tinha,
para um dia revelar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

é um gesto corriqueiro,
praticado em todo canto,
não é de causar espanto,
muitas vezes verdadeiro
em certos casos, primeiro,
quem se previne, adivinha,
cuida, protege e caminha
para o que lhe interessar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

tem aquele que apela
para Deus, o que deseja,
comparece a uma igreja,
a um santuário ou capela,
reza uma salve-rainha,
no altar, banco ou lapinha,
pra seu desejo alcançar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

para suas conveniências
às vezes uma criatura,
com arte e desenvoltura,
age para diligências
das diversas incumbências,
com as quais se apadrinha,
se afirma e se aninha,
sem aos outros se importar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

tem gente que negocia,
procurando convencer,
diz que vai desenvolver
um plano de primazia,
chama toda freguesia,
faz aquela ladainha,
mas nem bate a passarinha,
se o cliente se enrolar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

é normal num desafio
entre vates cantadores,
parecendo dois tenores,
cada um mostrando brio,
se declara ser bravio,
e aí efervesce a rinha,
no toque da violinha,
passa a se vangloriar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

Quem quer a sardinha assada,
procura puxar a brasa,
com jeito e não se atrasa,
para ter assegurada
sua parte desejada,
sem perder essa boquinha,
quem sabe, busca, caminha
para se realizar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

assa carne de pavão,
de porco, peba, tatu,
de bode, gado, peru,
codorniz, arribação,
milho, bolo, queijo, pão,
preá, batata, galinha,
peixe, filhós, batatinha,
tudo o que se pode assar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

tem muita gente egoísta,
só pensa em tirar proveito
para si de todo jeito,
não muda o ponto de vista,
achando ser uma conquista,
não passa de picuinha
essa atitude mesquinha,
que não é nada exemplar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

vê-se gente dar atenção
pra si mesmo e mais ninguém,
trata os outros com desdém,
passa a ser obsessão,
não ajuda a seu irmão,
nem até sua mãezinha,
achando bom a vidinha,
a ninguém quer ajudar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

tem pessoa impertinente,
intragável, presunçosa,
imbecil, reles, teimosa,
antipática, renitente,
tacanha, inconveniente,
só anda fora da linha,
com sua cara lisinha,
sem nada para agradar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

vê-se pessoa que quer
conseguir algo na marra,
insiste e não se desgarra
do seu ávido mister,
não mede e dê o que der,
sua conduta daninha
irrita, incomoda, espinha,
e só faz contrariar.
cada um tenta puxar
a brasa à sua sardinha
.

(José de Sousa Dantas, in Usina de Letras, Secção Literatura de Cordel)

bragal


por falar em "bragas", "bragal" era aquele pano ordinário, de linho grosso (tecido em tear de pau), de que eram feitas as bragas. por extensão, "a roupa branca de uma casa", "enxoval".

ir abaixo de braga

em boa verdade, "ir abaixo de Braga" é muito menos frequente do que "mandar abaixo de Braga", porque uma cousa é mandar e outra é ir.
talvez por isso se diz mais depressa "mandei-o abaixo de Braga" do que o imperativo "vai abaixo de Braga!"
ouço a expressão desde pequeno, sobretudo na própria cidade de Braga e seus arredores. o certo é que nunca ninguém me soube explicar a origem da expressão. mas tendo em conta o seu significado picaresco, é possível que tenha tido origem num trocadilho entre Braga e bragas, sendo que a palavra "bragas", que se mantém viva em Espanha, caíu em desuso por aqui. diga-se de passagem que o mais certo é que Braga e bragas tenham origem comum na tribo brácara, que, ao que consta, terá sido a fashion designer dessa peça de roupa. em versão um poucochinho démodée, obviamente.
seja como for, a expressão é muito mais compreensível se na origem tiver sido "ir abaixo de bragas". que é como quem diz "ir à merda". com vossa licença, claro.

paspalho

"paspalho" (adj.; subst.) significa "palhaço"; "pessoa inútil" (fig.), "atranquilho" (fig.); "parlapatão", "lorpa"; "parolo"; ""palerma"; paspalhão", "tudo e todo o que enreda, atranca ou confunde"; "janota" (fig.), "figurão" (fig.); também: "codorniz".
o mesmo que "paspalhetas" e "paspalheteiro" (Gz.).
relacionado com "paspalhada" ou "paspalhoada" (Gz.): o conjunto de penas, palhinhas, trapos e ervas que formam o ninho dos pássaros.



imagem: aqui

Sábado, Setembro 27, 2008

mal-entendido

o mal-entendido é um efeito secundário da comunicação. depende da relação entre quem comunica e da emoção e expectativas mútuas.
os mal-entendidos são particularmente sérios na comunicação amorosa e no discurso diplomático: um ligeiro desvio de código, uma interferência maldosa, uma desconfiança infundada, uma coincidência inoportuna, e zás! estala a confusom.

mas só pode haver mal-entendidos onde houver comunicação. e é isso que salva a maior parte dos mal-entendidos.

ter bichos carpinteiros

"ter bichos carpinteiros" é próprio das crianças rebuldeiras, traquinas, travessas, que não param quietas. é sinal de saúde e graça de Deus, mas incomoda bastante os adultos (mais os pais que os avós). tamém se diz "ter bichos carpinteiros no rabo".

a expressão deriva da azáfama daqueles bichinhos da madeira velha, que a vão comendo até aos ossos, deixando só a capa e o verniz. e fazem aquele reque-reque que atordoa as insónias de quem as tem.

equivalente: "ter o formiguilho no cu" (Gz.). contributo de LQB - ver Comentº.

vidrinho de cheiro

a expressão "vidrinho de cheiro" vem de os frasquinhos de perfume terem um aspeto delicado e serem habitualmente fáceis de quebrar. refere-se a alguém muito sensível, suscetível à crítica ou a observações que para outros são inofensivas. niquento.
equivalentes: "florzinha de estufa", "mariquinha pé de salsa".

levar a mal

a expressão "levar a mal" significa "ficar ofendido", "ficar melindrado", "ficar zangado" (ofender-se, melindrar-se, zangar-se) com algo que é dito ou feito.
às vezes o "levar a mal" é fruto de um mal-entendido, pois a reação nem sempre está de acordo com a intenção do dito ou feito que a provocou. e como somos todos uns vidrinhos de cheiro, mais suscetíveis do que empáticos, usamos muito mais vezes a expressão "levar a mal" do que "levar a bem".

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

rebuldeiro (Gz.)


"rebuldeiro" (adj.) significa "traquinas", "travesso", "brincalhão", "divertido", "joguetom" (Gz.), "retouçom" (Gz.), "diabrete".
usa-se para gente miúda, para animais de companhia, reais (exº. o cão) ou de estórias infantis (cão, gato, urso), e tamém para diabos, trasnos, dianhos e belzebus.

entender (Pt., Gz. e Br.)

"entender" (verb.) significa "compreender", "perceber", "interpretar", "inteligir", "abranger"; "crer", "pensar", "julgar"; "ter ideias claras sobre qualquer coisa ou assunto"; "ser perito ou conhecedor de alguma matéria"; "conhecer alguém em profundidade"; "comunicar ou dialogar com alguém para além do superficial".

"entender" (subst.) significa "parecer", "opinião".


no meu entender, entender alguém pode não ser mais que um conjunto de mal-entendidos que fazem um novo sentido em comum. o que interessa de verdade é a cumplicidade que se cria. há muitos anos alguém me disse: "pouco importa o que estás a dizer, adoro a forma como o dizes". em suma: não interessa a letra, o que mais conta é a música.

Quinta-feira, Setembro 25, 2008

corrupio (Pt. e Br.); corrúpio (Gz. e Br.)

"corrupio" (subst.) é o mesmo que "roda-viva", "atividade frenética"; "stresse" (fig.); "volta", "vira-volta"; "afã", "azáfama"; "dança" (fig.); brincadeira em que se formam pares que, de mãos dadas e com os braços esticados, jogam o corpo para trás, rodando em conjunto o mais rápido que podem (Pt. e Br.); brinquedo formado por uma haste de pau, onde se fixam hélices de papel ou de penas que giram com o vento;


"corrúpio" (Gz.): brinquedo formado por uma peça de barro com dois buracos pelos quais entram dois fios que puxados a põem em movimento (Gz.).
"corrúpio" (adj.): "cruel", "perverso"; "ferrenho", "feroz", "empedernido" (Gz. e Br.).


e aqui vai um extrato de um textinho de Rubem Alves, psicanalista-escritor, sobre corrupios:

abri o meu baú de brinquedos. piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. peguei um pião e uma fieira e fui praticar. estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. olhou-me espantado. ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. psicanalista é pessoa séria, ser do dever. pião é coisa de criança, ser do prazer. acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. a teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. o psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. mas a minha vocação é a heresia. ando na direção contrária. "você sabe rodar piões?", eu perguntei. ele não sabia. acho que ficou com inveja. a sessão de terapia foi sobre isso. e ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. crianças são ridículas. adultos não são ridículos. aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os "outros" definem como ridículo. quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.

(in: Correio Popular, de Campinas, SP, Br.).

Terça-feira, Setembro 23, 2008

columpio (Gz.)

"columpio" (subst.), do cast., significa "balancé", "baloiço", "cadeira de baloiço",
"carrocel de baloiços giratórios", "randeeira", "arrandeeira", "bambam" (Gz.) - ver Comentºs de Calidonia e LQB.


não resisto a resumir o conto Novo de Parmuide, de Álvaro Cunqueiro, em Xente de Aquí e de Acolá.




Novo, um rapaz de Parmuide, apaixonara-se polos columpios nas festas de Mondonhedo e de Lugo. tanto , que feira ou arraial a que ele fosse tinha que lá gastar o dinheiro a columpiar-se. já home completo, Novo mandou vir um columpio individual, de cadeado, com assento forrado a pano verde, de onde caíam uns guizos. e montou-o na eira. sempre que podia, fazia a sesta no columpio e se queria provar amizade a alguém convidava-o a columpiar-se nele.
na tropa, um camarada que curava cavalos ensinara-lhe um montóm de receitas coas que apanhou o jeito e o vício de curar. e mais tarde, nom se sabe quando, Novo haveria de ajuntar o seu columpio ao já composto arsenal terapêutico. a princípio curava só catarros, com umas quantas doses de columpio, mas depois começou a aventurar-se às dores de cabeça, ao raquitismo e à anemia, com o que foi fazendo o carreiro das formigas de uma vasta clientela.
farto de ouvir falar em linguagem científica a outros que curavam menos que ele, Novo tratou de aprender uns versos e uns latins para recitar aos clientes enquanto os columpiava. dizia ele que um soneto bem botado aumenta a confiança dos enfermos. depois que aprendeu de cor uns versos e ladainhas, o mencinheiro já ajudava as mulheres prenhas a livrar-se em noites de lua cheia. e até conseguiu que uma freira paralítica saísse do columpio polo pezinho dela.
temendo que lhe decorassem a reza e co isso lhe roubassem o poder, Novo passou a dizer os versos ao revés. palavras de ocultis.
mas quando Novo morreu, o poder do columpio finou-se tamém. já nem os ratos lhe tenhem respeito.

vadio (Pt., Gz. e Br.)

"vadio" (adj.; subst.) significa "vagabundo", "gandulo"; "errático" (exº: "Conversas Vadias", um antigo programa de TV de Agostinho da Silva); "fugidio"; "desocupado", "malandro", "ocioso", "preguiçoso"; "marginal".


cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
e reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
não sou parvo nem romancista russo aplicado,
e romantismo, sim, mas devagar...).

sinto uma simpatia por essa gente toda,
sobretudo quando não merece simpatia.
sim, eu sou também vadio e pedinte,
e sou-o também por minha culpa.
ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
é estar ao lado da escala social,
é não ser adaptável às normas da vida,
às normas reais ou sentimentais da vida.
não ser juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
não ser pobre a valer, operário explorado,
não ser doente de uma doença incurável,
não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria,
não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
e se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
não: tudo menos ter razão!
tudo menos importar-se com a humanidade!
tudo menos ceder ao humanitarismo!
de que serve uma sensação se há uma razão exterior a ela?
sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
é ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
é ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
tudo o mais é ter fome ou não ter que vestir.
e, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
e estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
coitado do Álvaro de Campos!
tão isolado na vida! tão deprimido nas sensações!
coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão
coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
e, sim, coitado dele!
mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
que são pedintes e pedem,
porque a alma humana é um abismo.
eu é que sei. coitado dele!
que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
mas até nem parvo sou!
nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
não me queiram converter a convicção: sou lúcido!
já disse: sou lúcido.
nada de estéticas com coração: sou lúcido.
merda! sou lúcido.

(Poesia de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa)

Domingo, Setembro 21, 2008

palitroque (Gz.)

"palitroque" (subst.) significa "pequeno pau mal amanhado"; "pequeno pau para bater com ele"; "golpe dado com palitroque"; "baqueta de tambor"; "paus que batendo uns nos outros marcam o compasso da música"; "bandarilha".

(fontes: Dicionário Estraviz; Diccionario Gallego-Castelán, de L. Carré Alvarellos; Diccionario Anacomas).

mojena (Gz.)

"mojena" (subst. fem.) significa "chisca", "chispa", "faísca", "faúlha", "labareda"; "centelha", "mujica" ou "muxica" (ver Comentºs de Maria Balteira).

graf. altern.: "moxena"

averno

"Averno" é um lago situado perto de Cumas (It.) na cratera de um vulcão extinto. o nome vem do grego aornon: "[lugar] sem aves". de suas águas exala um cheiro que espanta a vida, pelo que foi, desde tempos antigos, associado a uma das entradas do inferno. para os Romanos, Averno estava consagrado a Plutão, o deus dos infernos.

na Literatura, é tomado por sinónimo de Inferno.



a Morte, vestida em branco, eis minha próxima amante.
minha sede pelo que é vermelho, crescente como a lua, como a palidez
e o branco, o infinito tom cadavérico de tua pele.

incógnito e inatingível é o meu ritual!!!

o obscuro somente me encanta, a noite é minha única companheira,
minhas três noivas: os astros, a solidão e a melancolia.
não me tenhas como Narciso, pois minha imagem é a de Pan...
feiúra exalta-me !!! a beleza? está em mim !!!

eu uivo para ti porque sou teu cão que chora e pranta pela dor de quem, aos
poucos, definha... sou vampiro que procura por líquido menstrual
e que jorra o sacro-semen por ti, oh meretriz dos céus!

afaste-se de mim ou venha a mim, para comigo dividir toda esta misteriosa,
densa e negra floresta interior - para nos perdemos entre os abismos...
o mundo é um mar de rosas ou de trovões ?!? os ventos sopraram
e fizeram tu escapar em pleno e puro Nirvana.

(Canção em Lua Negra de Averno, da banda Malkuth - Br.)

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imagem: http://www.lagoaverno.it/

Sábado, Setembro 20, 2008

e agora a Queimada

apesar do seu aspeto arcaico, a Queimada é uma tradição recente. e mesmo os seus ingredientes, tais como a augardente e o açúcar, não podem ser anteriores aos primórdios da Baixa Idade Média, pela simples razão de que ainda não existiam por cá.
mas, nos seus elementos fundamentais, tem reminiscências célticas, co seu lume, o pote, a escuridão, o álcool e os conjuros e esconjuros, cousa que, vindo do fundo dos tempos, remexe no íntimo da i-alma e da cultura do Noroeste, fazendo o êxito da Queimada.
espécie de teatro folclórico, a Queimada tem lugar à noite, depois da ceia, em plena escuridão, onde ressaltam a colher de augardente botando chispas de lume e as lengalengas de conjuros e esconjuros que, pola sua toada irracional, resultam numa linguagem que atinge diretamente o coração dos presentes.
a última vez que me recordo de participar numa Queimada foi em Vilar de Perdizes, Montalegre, no rematar dos trabalhos de um Congresso de Medicina Popular.
não tendo sequer cinquenta anos, os conjuros da Queimada são muitos, destacando-se os seguintes (em grafia reintegrada):


CONJURO DA QUEIMADA (Mariano Marcos de Abalo, 1967)

mouchos, corujas, sapos e bruxas, demos, trasgos e dianhos,
espíritos das nevoadas veigas,
corvos,
píntigas e meigas, feitiço das mencinheiras.
podres canhotas furadas, fogar dos vermes e
alimanhas,
lume das santas companhas,
mal de olho, negros meigalhos, cheiro dos mortos, tronos e raios.
ouveio do cam, pregom da morte, focinho do sátiro e pé de coelho,
pecadora língua da má mulher casada cum home velho.
averno de satám e belzebu, lume dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus.
mugido da mar embravecida, barriga inútil da mulher solteira,
falar das gatas que andam à janeira,
guedelha porca da mulher mal parida.
com este fole levantarei as chamas deste lume que assemelha ó do inferno,
e fugirám as bruxas a cavalo nas suas vassouras,
indo-se banhar na praia das areias gordas.
ouvi, ouvi! os rugidos que dam
as que nom podem deixar de se queimar no aguardente,
ficando, assim, purificadas.
e quando esta beberagem baixe polas nossas gorjas
ficaremos livres dos males da nossa i-alma e de todo embruxamento.
forças do ar, terra, mar e lume, a vós fago esta chamada!
se é verdade que tendes mais poder que a humana gente,
aqui e agora fazei que os espíritos dos amigos que estám fora
participem com nós desta queimada.


CONJURO (Xosé María Pérez Paralhé, 1909-1987)

lume, luminha que verde caminha, da fraga à lareira fai-se lumeira
lume da quentura pra nossa fartura
lume abençoada que roda a queimada
pingota de orvalho, auga do agoiro
cerqueira de lume sem trasno nem fumo
nem bruxa chuchona, nem meiga ventona
rolar moinheiro, chiscar faisqueiro
mojena lumiosa, vagalume roxa
viradeira de luz, faremos a cruz
polo ar da sorte, que escorrenta a morte
pola auga da vida que sara a ferida
pola erva moura que o que abusca atesoura
pola pedra do raio que mata o meigalho
lume, lume, lume
lume lumeada para
alouminhar
a queima queimada
da vida virada do borburelhar
polo Sam Silvestre, cam e
palitroque
polo San Andrés ou polo Santiago
num reviravés queimada che fago
e queimada é


por curiosidade, querendo tentar:

QUEIMADA PARA 6:

- uma noite escura, vendo-se a lua
- 6 amigos e amigas
- uma panela de barro
- uma colher de pau comprida
- 6 malguinhas de barro
- uma fogueira ou lume
- litro e meio de aguardente de 45º
- meio quilo de açúcar
- raspas de um limão; pedacinhos de maçã ou bagos de uva, a gosto
- um quarto de litro de café do bom

companha

"companha" (subst. fem.) significa "companhia", "agremiação", "confraria"; "séquito", "comitiva"; "a tripulação de um navio".
"santa companha" (Gz.): procissão noturna das almas

esconjuro

"esconjuro" (subst.) é uma imprecação mágica ou exorcismo destinada a afastar e amaldiçoar algo ou alguém, vivo, morto ou espírito.

conjuro

"conjuro" (subst.) é o inverso de "esconjuro": é uma "invocação ou convocatória mágica destinada a conjurar ou reunir espíritos ou forças".

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

alimanha (Gz.), alimaria (Pt. e Gz.)

do lat. animalia, "alimanha" ou "alimária", e também "alimália" e "alimalha", é qualquer animal irracional, sobretudo se é tido por desprezível ou prejudicial ou se se lhe reconhece poderes ou ligações sobrenaturais. exºs: a coruja, a salamandra (pinta, píntega, píntiga), a toupeira, o coelho, o corvo, o gato preto, o mocho ou moucho, o morcego, o rato, o sapo.

mencinheiro (Gz.)

"mencinheiro" (adjet.) é "aquele que pratica "mencinha" (de medicina) ou medicina popular, "aquele que prescreve ou administra mezinhas" (de medicina), "curandeiro"; "feiticeiro".

ouveio (Gz.), uivo (Pt., Gz. e Br.)

"ouveio" ou "uivo" (subst.) é o grito lúgubre e prolongado de alguns animais, como os cães e os lobos. fig.: o som produzido por alguns ventos e tempestades.
verbos derivados: "oular" (Gz.), "oulear" (Gz.), "ouvear", "ouviar" (Pt., Gz. e Br.)
adjetivos: "ululante", "uivante".

latim (onomatop.): ululu, ululare

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

meigalho (Gz.)

"meigalho" (subst.) é a ação ou efeito causado polos meigos, ou feiticeiros, homes ou mulheres. é o mesmo que "encantamento", "feitiço", "influência, boa ou má", "malefício".
assim, é um meigalho qualquer maleita física ou psíquica provocada por vizinhos ou familiares malquerentes ou assim supostos, por inimigos, ou por diabos e outros espíritos malignos, que se metem dentro das pessoas para lhes perturbar a existência e a paz de espírito. são também meigalhos a histeria, a fraqueza inexplicável e uma série de padecimentos vagos do foro psiquiátrico.
dos meigalhos bons não se queixam as pessoas. que as vejo caminhando pola vida à cata deles.

o mago

certo dia tirei-me de clichés e preconceitos e fui visitar a casa-museu de um feiticeiro reformado, ali para as bandas de Lugo. o home acolheu-nos de boa mente e logo começou o foguetório das suas artes. que tinha 300 anos de vida, que era capaz de voar, que tinha uma capa vermelha, enfim. enquanto ele exibia as suas gabanças, acompanhadas de vasta coleção de fotos e artigos de jornais, eu passava os olhos pelo estendal de ervas, patas de rãs, insetos e bichos repelentes, mezinhas, poções, pós, potes e almofarizes, receitas e esconjuros, livros da melhor gente da cultura e das artes: um museu a sério.
e eu bebia na fonte o que a bica botava.

vendo-me interessado e curioso, o home mandou-me uma estocada e quase me atira ao tapete:
- sabes de onde vem o meu poder?
fiquei sem resposta, ante tantas hipóteses que me passavam pola mente. pelo que, após um interlúdio bem estudado, o home respondeu à própria pergunta rapando do boné que trazia na cabeça e pondo-me a testa dele na frente dos meus olhos:

- daqui!
e mostra um par de corninhos, um de cada lado da testa, quase simétricos, que trazia recatados no seu boné.

a Bíblia passou-se-me de repente pelos olhos de dentro: tamém a Moisés o pintam com uns cornos assim!

aí, passei ao contra-ataque:

- Manolo, cando eu entrei ali pola porta vi cousas de Deus ao lado direito e cousas do Diabo na vitrine da esquerda...

- ...e sabes porquê? - perguntou triunfante.
- ora, respondi eu, a porta da tua casa é como entrar dentro da gente. Deus e o Diabo fazem parte da nossa natureza!

a reação do home foi de incredulidade. olhou pra mim de cima abaixo e perguntou:
- tu que fazes? és vidente? filósofo?
- gosto de entender as pessoas, só isso.

quem ia comigo já não aturava mais a conversa e deu coa língua nos dentes:
- ele é psiquiatra!

fiz uma cara de zangado, mas o mal estava feito.

a conversa mudou de figura. o impressionante feiticeiro entrou em confissão. contou como tudo começara, ainda jovem. cousas difíceis de entender se tinham passado co ele. chegavam-lhe de outros mundos vozes e influências. andara polos médicos, sem que lhe dessem solução às dúvidas, incertezas, enigmas e temores. começou a frequentar congressos de medicina, de literatura e de cultura e arte, procurando respostas. tornou-se amigo de figuras de renome e influência.
a fama dos seus contactos com experiências além do real fez que o procurassem cada vez mais e de mais longe. a resposta encontrou-a ajudando os outros.

hoje é ele mesmo um museu na sua terra.


escarafunchar (Pt., Gz. e Br.)

"escarafunchar" (verb.) significa "remexer", "revolver", "esquadrinhar", "investigar", espiolhar", "aprofundar", "sondar", "esgaravatar" ou "esgravatar".

Terça-feira, Setembro 16, 2008

não paga a pena

a expressão "não paga a pena" ouve-se no norte de Portugal, no Brasil e na Galiza. é o mesmo que "não vale a pena", "não merece a pena". significa "não compensa", "não vale o esforço".

"não paga a pena plantar. a formiga come tudo" - Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato

"às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".
(Fernando Pessoa)

outear (Gz.)

"outear" (verb.) significa "observar a partir de um ponto alto". "andar de um lugar para o outro".
da mesma raiz latina que deu altus (alto) e altarium (altar, outeiro).

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

madrasta (Pt., Gz. e Br.)

"madrasta" (subst. fem.) é a mulher casada com o pai que não é a mãe. é a estranha caprichosa e má que gere um mundo "real", desprovido de afeto, carinho e proteção. nos contos de fadas, a madrasta personifica os obstáculos e adversidades com que a criança se depara ao longo do seu crescimento e afirmação pessoal. a "madrasta" é superada pela chegada do príncipe encantado. como diz a minha filha de 4 anos, "o príncipe vem sempre no fim da história".
como adjetivo, "madrasta" significa "dura", "difícil", "ingrata". exº: "a vida tem-lhe sido madrasta".
fig.: mãe pouco afetuosa.
variantes (Gz.): "madrasca", "madrasga".

Sábado, Setembro 13, 2008

bruxa (Pt., Gz. e Br.)

"bruxa" (subst.) deriva etimologicamente da mesma raiz de "bruxulear", "brûler" (Fr.) e "brusciare" (It.), estando, portanto, ligada à ideia de "arder", "queimar", "grelhar", "assar", "tostar", "torrar". não porque elas, as bruxas, queimassem as pessoas, mas porque as queimavam a elas em espetáculo público. "bruxa" é, pois, "a que ardeu", "a queimada".
a esse destino as condenou a Inquisição, trazida para a Península Ibérica por Fernando II de Aragão. o objetivo foi o de erradicar o sentimento e o pensamento pagão tradicionais, reduzindo tudo e todos a um só pensar e a um só sentir. no mesmo fogo arderam judeus e outras dissidências mais cultas e letradas, que deixaram relato de seu. mas as bruxas, que não sabiam ler nem escrever, não puderam deixar o relato heróico de suas provações e calvários.
às "bruxas" pintam-nas velhas e muito feias, magras, de queixo arrebitado e nariz adunco, montando uma vassoura voadora. não há pior metáfora do que passou a ser velho e caduco: a ordem tradicional, o matriarcado, as crenças populares, a medicina artesanal, a psicologia intuitiva, o transe terapêutico. os poderes de certas mulheres foram atribuídos a um pacto pessoal com o diabo, pelo que o seu destino só podia ser o fogo, à vista de todos. e a passagem de "bruxa" a adjetivo, com o significado de "velha feia, horrorosa e malfazeja".
mas, apesar do holocausto, a cultura popular sobreviveu até bem perto dos nossos dias. moribunda, já não inspira medo nem cuidado. já é possível organizar congressos, encontros e jornadas de feitiçaria, cultura e medicina populares, muito frequentados pela fina-flor da nossa cultura urbana.
é que, como diz o outro, yo no creo en brujas, pero que las hay, hay.

nota: sobre o tópico ver "meiga".

oxalá (Pt., Gz. e Br.)

"oxalá" (interj.) é outra aportação árabe, neste caso tamém islâmica. muito próxima da expressão original in sha Allah: "praza a Deus", "seja do agrado de Deus", "Deus queira", "queira Deus", "prouvera a Deus". na Galiza coexiste a variante "ogalhá". graf. altern.: "ogallá"

exprime desejo de que algo pretendido aconteça. ver "quem dera!"

salamaleque

"salamaleque" (subst.) reproduz quase fielmente a expressão árabe "as salam alaik": "a paz esteja contigo". na língua do quotidiano significa "maneirismo", "cumprimento afetado", "mesura exagerada", "saudação interesseira".
é a saudação de cortesia entre os turcos.

Sexta-feira, Setembro 12, 2008

fazer-se de novas

a expressão "fazer-se de novas" significa "fazer-se de conta que não se sabe", "mostrar-se curioso de novidades (novas) que já se conhece ou de que se é protagonista", "fazer de conta que se está saber de algo pela primeira vez", com a finalidade de sondar as opiniões correntes a respeito.
o significado sobrepõe-se, pelo menos em parte, à expressão "tirar nabos da púcara".

sumidoiro

"sumidoiro" (subst.) significa "esgoto", "buraco, lugar ou processo por onde se escoa ou consome a água, os detritos, o dinheiro ou outra coisa qualquer". o mesmo que "sumideiro" e "sumidouro"

na Galiza usa-se "sumidoiro" como sinónimo preferencial de "esgoto". exº: "a rede municipal de sumidoiros". mas tamém nos restantes sentidos da palavra.

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

falangueiro (Gz.)

"falangueiro" (adj.) significa "aquele que tem um falar agradável", "afável", "bem falante", "de boas falas", "falinhas mansas" (no sentido adjetivo), "lisonjeiro".

fazer orelhas moucas

a expressão "fazer orelhas moucas" significa "fazer de conta que não se ouviu", "não dar importância ao que se ouve", "fazer-se de surdo".

do ponto de vista semântico, sobrepõe-se, pelo menos em parte, à expressão "fazer ouvidos de mercador".


tamém se diz: "a palavras loucas orelhas moucas", para significar que há coisas a que não se pode dar importância. o mesmo é dizer: "palabras tolas, orelhas xordas" (Gz.).

muito atual é o refrão "a falangueiros ditos, tapa os ouvidos" (Gz.), pois adverte para não nos deixarmos influenciar pelas falinhas mansas e boas falas.

sumir (Pt., Gz. e Br.)

"sumir" (verb.) significa "desaparecer", "fazer desaparecer", "ocultar"; "perder", "gastar", "consumir"; "afundar", "apagar(-se)"; "extinguir(-se)", "esvair(-se)".

derivados: "sumiço" (subst.) - desaparecimento; "levar sumiço" - desaparecer; "dar sumiço" - fazer desaparecer.
ver Comentº de "o".


com esta postagem iguala-se o número de entradas de Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira, primeira das loucuras por onde me fiz viajante. a ideia comum é a de um serviço à comunidade da língua, pôr em contacto três povos com os mesmos adns, tantas vezes fáceis de dividir por sotaques, ortografias e microrregionalismos, mas, acima de tudo e apenas, pela falta de encontros e de reuniões periódicas e assíduas, onde se relembre, festeje, aprofunde e desfrute o património comum.

a internet, com a sua interatividade, é o lugar perfeito para o re-encontro.

Quarta-feira, Setembro 10, 2008

trinchar

"trinchar" (verb.) significa "cortar a carne em fatias", "cortar a carne com modos de quem sabe". com faca e garfo trinchantes.

prato

"prato" (subst.) é a peça de loiça redonda, larga e achatada, com um rebordo estreito em redor, que serve para conter a comida de cada um. há os pratos de sopa, os pratos ladeiros e os pratos de sobremesa.
tamém se chama prato à variedade culinária que vai ser servida ou que pode ser escolhida de um cardápio ou menu.
e, ainda, há quem chame "prato" às antenas parabólicas.

garfo

"garfo" (subst. fem.) é a peça de talher ou baixela que serve para levar à boca os alimentos sólidos.

colher, culher (Gz.)

"colher" ou "culher" (subst. femin.) é a peça de talher ou baixela que serve para levar à boca a sopa, o caldo e outros alimentos líquidos ou pastosos ou difíceis de agarrar com o garfo. há colheres para todos os tamanhos e funções: colheres de sopa, de sobremesa, de chá, de café.

a colher está presente em expressões como:

"entre marido e mulher não metas a colher" - significa que é errado, contraproducente e até perigoso tentar gerir racionalmente aquilo que, por natureza, é irracional e ambivalente.

"da colher à boca se perde a sopa" - significa que não se pode contar co ovo no cu da galinha, que uma coisa é prever e outra acontecer.

faca

"faca" (subst. femin.) é a peça de talher ou baixela que serve para cortar os alimentos.

tigela

"tigela" (subst. fem.) significa "malga", vaso de louça para servir a sopa ou o caldo.
graf. altern. (Gz.): "tixela"

"de meia tigela": sem valor, medíocre.

tijola (Gz.)

"tijola" (subst. fem.) significa "sertã", "frigideira", tacho de ferro para fritar.
na Galiza tamém se usa "tigela" com o mesmo significado.
graf. altern.: "tixola"

Terça-feira, Setembro 09, 2008

levar o carro à frente dos bois

expressão típica de um mundo rural desaparecido, significa "começar pelo fim", "inverter a ordem normal das coisas", "querer atingir um objetivo sem cumprir os passos necessários". a expressão sobrevive porque os carros e os bois já não carregam, mas os homes não mudaram.

entrar por um ouvido e sair por outro

a expressão "entrar por um ouvido e sair por outro" significa que quem ouve não retém o que ouve, não dá importância ao que é dito, que, para quem ouviu, ter falado quem falou ou ter ficado calado é igual.
ver Comentº de Calidonia.

fazer ver

"fazer ver" é uma expressão muito portuguesa, que denota uma preocupação mórbida com as aparências e vernizes. de certo modo, subentende que o que parece é. significa "exibir, evidenciar, mostrar uma condição ou estatuto". "o João faz ver, com aquele carro novo..." "eles tenhem uma casa que faz ver..."
mas, as mais das vezes, "fazer ver" sai demasiado caro. tenhem tudo por fora, mas passam fome por dentro.

Segunda-feira, Setembro 08, 2008

agochar (Gz.)

"agochar" (verb.) coexiste com e é o mesmo que "agachar". significa tamém "esconder", "ocultar", "encobrir", "dissimular", "calar o que se gostaria de dizer", "dizer, encobrindo, o que se quer dizer claramente".

Sábado, Setembro 06, 2008

mulherio

"mulherio" (subst.) significa "as mulheres", "o género feminino", "grupo, reunião ou conjunto de mulheres". "aquilo que carateriza as mulheres", "o conjunto de clichés e ideias feitas com que os homes definem a psicologia das mulheres".

mulherengo

"mulherengo" (adj.) é "aquele que anda com mulheres", "aquele que só está bem na companhia de mulheres". tamém: "afeminado", "maricas", "moceiro" (Gz.), "mulhereiro" (Gz.).
personagens célebres, reais ou literárias, como Dom João, Casanova, Rudolfo Valentino, Carlos Gardel não tinham o perfil de predadores, embora se fizessem acompanhar de dúzias ou centos de mulheres.
é que, em boa verdade, o predador não acompanha nem se faz acompanhar das suas presas: caça-as. e as presas, por sua vez, fazem questão de ser caçadas personalizadamente, uma a uma e uma de cada vez. como se fosse primeira e última. única. isto é, como se, não sendo, fosse.

graf. altern. (Gz.): "mullerengo", "mullereiro".


tamém se diz do home casado que anda com outras mulheres

Sexta-feira, Setembro 05, 2008

capoeira

"capoeira" (subst.) é o mesmo que "galinheiro", casoto ou coberto onde se criam e recolhem as galinhas. de "capão" ou "capóm", galo castrado e engordado. é, pois, um lugar onde só podem conviver galinhas, capões e um único galo competente.
no Brasil, "capoeira" é tamém uma forma incomparável de dança acrobática e arte marcial desenvolvida pelos escravos negros. de notar que os escravos que chegavam no Brasil eram chamados de "galinhas", tendo esta designação deixado marcas na toponímia (Rio de Galinhas). no séc. XVII, as invasões holandesas desorganizaram a sociedade do litoral, dando azo a que muitos escravos fugissem para o interior. a eles se deu o nome de "negros capoeiras" ou "capoeiras". terá sido um desordeiro, um tal tenente João Moreira, o criador desta forma de luta, a qual passou aos capoeiras, que a aperfeiçoaram e desenvolveram.

barbeiro

"barbeiro" (subst.) é "o que faz, corta ou apara a barba" - ofício em confrangedora decadência, derrotado pelas giletes, pelas máquinas de barbear e pelos hairdressers dos centros comerciais.
tamém: "o [vento] frio que entra pela barba".

cieiro ou sieiro

"cieiro" ou "sieiro" (subst.) significa "frio seco", "rachas, gretas, pequenas feridas (provocadas pelo frio gelado, nos lábios e nas mãos)". tamém se pode dizer do terreno gretado por ação do calor.
a terminação -eiro indicia um adjetivo substantivado pelo uso: de "gelo", "geleiro", "geeiro", "gieiro"ou "xieiro".
está semanticamente relacionado com a expressão "está um frio de rachar".

Quinta-feira, Setembro 04, 2008

sair a

aqui a expressão "sair a" significa "ser parecido com". no sentido de "parecido física ou mentalmente".
exº: "sai ao pai", "sai à mãe".
até se diz que "quem sai aos seus não degenera". e verdade será.
esta expressão não anda longe de outra: "de tal gente tal semente" (Pt. e Gz.).
quando a parecença é física, pode dizer-se: "é a cara chapada de..." ver Comentº de "o"

senlheiro (Gz.)

"senlheiro" (adj.) significa "solitário", "sozinho", "isolado", "na absoluta companhia de si mesmo".
pressupõe uma etimologia em singularium (lat.).
ver Comentº de "o" * à postagem "quem dera!"
tamém: "único", "sem igual", "incomparável" (ver Comentº de Fer)
graf. altern: senlleiro

.........................................
* na verdade, o excelente blogue "o que ouço por aí ".

Terça-feira, Setembro 02, 2008

levar e trazer

a expressão traduz a atividade frenética dos que levam umas novidades e trazem outras.
significa "cuscuvilhar", "bisbilhotar", "espiar".
há por aí muitos serviços de levar-e-trazer, mas este acaba por ser o mais divertido.
pode causar alguns estragos, mas é completamente grátis.

dar à língua

a expressão "dar à língua" usa-se para significar "falar muito", "falar demais" (Br.), "revelar um segredo", "fazer uma inconfidência", "desabafar", "cavaquear", "falar da vida alheia" (as mulheres).
certo é que "dar à língua" faz espairecer e é uma atividade eminentemente saudável. e que, como dizia o povo:

"as mulheres cando se juntam
a falar da vida alheia
começam na lua nova
e acabam na lua cheia"

hoje as mulheres já não "dão à língua" como antigamente. estão mais parecidas cos homes. talvez por isso, enchem os consultórios de psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e afins, "dando à língua" sentadas na cadeira ou deitadas no divã, pagando pra isso.
outras, mais inteligentes, criativas e femininas, "dão à língua" nos melhores blogues da internete. e não cobram nada.

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

quem dera!

dei comigo a usar esta expressão.
significa "oxalá!", "assim fosse...", "tomara!", "antes fosse...", "Deus quisesse..."
está por "quem me dera", ou seja, "haja alguém que me dê o que eu preciso".

retranca

"retranca" (subst. fem.) significa "defesa", "reserva", "cuidado", "rodeio", "astúcia".
"estar na retranca": estar à defesa, mostrar reserva ou prudência.

falar pelos cotovelos

a expressão "falar pelos cotovelos" significa "falar muito", "falar incessantemente", "falar demais" (Br.).
quem fala pelos cotovelos nem sempre fala acertadamente.
a origem da expressão talvez resida no costume da gente que fala muito gostar também de dar cotoveladas à medida que vai falando, como forma de reforçar o discurso, chamar a atenção, tornar impossível que não oiçam o que diz.

dor de cotovelo

a expressão "dor de cotovelo" significa "despeito", "ciúme", "inveja", "frustração", "estado de espírito de quem foi traído". o mesmo que "dor de corno".
a expressão é de origem difícil de determinar e explicar. há quem diga que deriva da posição de acabrunhamento e desânimo em que a pessoa atingida se coloca, com um dos cotovelos sobre a mesa e a cabeça inclinada, apoiada na mão do mesmo braço. muitas vezes com um copo de vinho, de uísque ou de cerveja na frente.
dor de cotovelo não tem idade, género, estado civil, beleza ou estatuto social.
e dizem que a pior dor de cotovelo é a primeira. porque daí prá frente se vai ficando vacinado...
...quem dera!

Domingo, Agosto 31, 2008

tagarela, taravela

"taravela" (Gz.), ("taraguela"?), "tagarela" (adj.) significa "aquele ou aquela que fala muito", "linguareiro", "linguarudo", "indiscreto".
a criança tagarela tem graça, o tagarela adulto é uma desgraça.

Sábado, Agosto 30, 2008

fazer de conta

"fazer de conta" significa "imaginar", "fingir", "fazer, pensar ou imaginar como se".

fazer conta (Pt. e Gz.)

"fazer conta" significa "fazer tenção de", "pretender", "supor", "esperar", "ter intenção de".
exº: "faço conta de ir" (Pt.)/ "fago conta de ir" (Gz.) - "estou a contar ir", "faço tenção de ir", "espero ir"
usa-se no Norte de Portugal e na Galiza
não é o mesmo que "fazer de conta".

Domingo, Agosto 24, 2008

aluir

"aluir" (verb.) significa "cair", "desmoronar-se", "abater", "cair por terra", "desabar", "minar por baixo", "derrubar por baixo", "ruir por baixo".
o aluimento deve-se bastas vezes a infiltração de águas, rotura no subsolo ou falta de solidez dos alicerces.
a minha gente, que não é minhota, estranhou que eu dissesse que o talude de acesso norte à ponte nova da Figueira da Foz tinha aluído logo após a sua construção. e por isso aqui vai este post.

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

debulhar (Pt. e Gz.)

"debulhar" (verb.) é o mesmo que "descascar", "tirar os grãos das espigas", "tirar os legumes da sua bainha (ervilhas, feijões)", "tirar o rebuçado do papel"", "esbagoar". fig: "procurar", "analisar", "ver com minúcia", "observar", "ler com atenção".

Domingo, Agosto 03, 2008

"pé" (subst.) significa "cada uma das extremidades distais dos membros inferiores", "base", "suporte", "apoio", "ocasião", "motivo", "pretexto". "pata", "chispe". "caule das plantas". unidade de comprimento correspondente a 12 polegadas, o que perfaz 30,48 cm.

sobre o pé constrói-se um sem número de expressões ou ditos, dos quais sobressaem:

ajuntar os pés (Br.) - morrer
andar ao pé coxinho - saltar ou correr com um pé só
ao pé de - junto de, ao lado de
arranjar um pé - encontrar um pretexto
bater o pé - obstinar-se, teimar

com os pés para a cova - em estado de morte iminente, muito doente

com pés e cabeça - bem pensado, bem estruturado, bem organizado

com pezinhos de lã - sorrateiramente, sem alardes
conversa de pé de orelha - conversa confidencial, confidência
damos-lhe a mão, toma-nos o pé - abusa da nossa confiança
do pé para a mão - de um momento para o outro
em pé de guerra - em rebuliço

em que pé está - em que ponto ou fase está (um assunto ou negócio)

fazer finca-pé - teimar
lamber os pés - adular, bajular

meter os pés pelas mãos - atrapalhar-se, confundir-se, não dizer coisa com coisa

passar o pé - abandonar, ultrapassar

não ser chinela para o teu pé - não ser da mesma categoria social, intelectual ou moral para acompanhar, namorar ou casar contigo

não tem pés nem cabeça - é um absurdo, um disparate
pé ante pé - devagarinho, sorrateiramente

pé de cabra - instrumento de trabalho dos gatunos constituído por uma alavanca de ferro fendida numa das pontas. serve para arrombar portas

pé de chumbo - aquele que tem um andar pesado, lento, preguiçoso

pé de dança - folia, animação,
pé de meia - aforro, pecúlio, mealheiro
pé de prosa (Br.) - palestra, conversa
pé de vento - confusão
pé direito - altura do sobrado ao teto
perder o pé - perder a base, perder o apoio, perder o controle

pés de galinha - as rugas no canto externo dos olhos, sobretudo nas mulheres

ter os pés bem assentes no chão - ser realista, não embarcar em loucuras

ter pés para andar - ter viabilidade, ter possibilidades de concretização (um projeto, uma ideia)

Sábado, Agosto 02, 2008

bica

"bica" (subst. fem.) é um tubo ou caleiro de pedra, metal, madeira ou telha por onde se faz sair a água de uma fonte. as bicas foram durante séculos as formas de abastecimento de água nas cidades e vilas. muitas bicas ainda lá estão, outras são recordadas na toponímia local: "Largo da Bica", "Rua da Bica", "Bairro da Bica". também significa "torneira", "fonte", "fontanário".
"chávena de café espresso" (Pt.). "a proa das dornas do Rio Minho". "pão de trigo achatado e comprido, com um bico em cada ponta". "cachoeira ou queda de água de fio único e estreito" (Br.).

expressões associadas:

estar à bica (Pt.) - "estar prestes a...", "estar na primeira linha para..."

suar em bica - "suar profusamente"


Sexta-feira, Agosto 01, 2008

pingo

"pingo" (subst.) significa "pinga", "gota", "pequena quantidade", "gota de soldadura", "medicação psiquiátrica", "pequena chávena de leite com uma gota de café".

expressões associadas:

não estar a tomar os pingos - "andar alterado dos nervos", "dizer ou fazer coisas sem nexo" (por ter deixado de tomar a medicação)

pingo de gente - "pessoa baixinha"

pinga

"pinga" (subst. fem.) significa "gota caindo", "pequena quantidade de líquido", "bebida alcoólica", "vinho", "um gole ou grole de vinho", "bebedeira", "chuva fraca".

expressões associadas:

boa pinga - "um vinho agradável", "vinho bom"
cair umas pingas - "chover pouco"

gato pingado - "funcionário de agência funerária", "o encarregado de providenciar o bom decurso do enterro"

pinga amor - "namorado lamecha", "pessoa excessivamente amorosa"

pinga notas - "pessoa rica", "pessoa que gosta de exibir o dinheiro que tem"

sem pinga de sangue - "lívido", "pálido", "assustado de morte"

Segunda-feira, Junho 30, 2008

marinheiro

"marinheiro" (subst.) é o mesmo que "marujo": "homem do mar".
tamém como adjet.: "ligado ao mar", "relacionado com o mar", "dependente do mar".

graf. altern (Gz.): "mariñeiro", "maruxo".

Terça-feira, Junho 24, 2008

maré

"maré" (subst.) é o momento em que se encontra o fluxo e o refluxo periódicos das águas do mar, devidos à conjugação da translação e rotação da terra com a translação da lua. há maré vaza, ou baixamar, e maré alta, maré cheia ou preamar. entre a preamar e a baixamar dá-se a "vazante".
é um privilégio das gentes ribeirinhas do mar poder observar esta fascinante relação entre a terra, a lua e o sol, afinal de contas a trindade astral que nos governa os ciclos e a mente.
além destes ciclos de influência lunar, que irresistivelmente evocam o pólo feminino, a relação do mar com a mulher e a fertilidade resulta também evidente, se soubermos que a palavra "mar" era feminina, e ainda o é nos falares galegos ("a mar"), e podia ficar plena: "cheia", "prenha" ou "prea".
o intervalo entre duas preamares é de 12 horas e 25 minutos, pelo que entre a preamar diurna de hoje e a preamar diurna de amanhã há um intervalo de 24 horas e 50 minutos. daí que se diga, aproximadamente, que a maré do dia de amanhã é uma hora depois da do dia de hoje.
as marés não têm todas a mesma intensidade. dependem das posições relativas do sol e da lua. desse modo, há marés vivas na lua cheia e na lua nova e há marés mortas no quarto crescente e no quarto minguante. isto quer dizer que o intervalo entre duas marés vivas, ou entre duas marés mortas é de, sensivelmente, 15 dias. se a maré viva ocorre nos equinócios, a intensidade da maré é ainda maior, pela presença do sol sobre equador da terra. daí chamarem-se marés vivas equinociais. nas latitudes europeias, ocorrem, habitualmente, em março-abril e em setembro-outubro. tamém há marés vivas equinociais se é a lua que está sobre o equador da terra. há outros ponteiros no relógio das marés, mas deixo isso para os especialistas do assunto.
as "marés" têm servido de referência para uma série de expressões e ditos, como:

"andar a favor da maré" - aproveitar a ocasião favorável
"andar ao sabor da maré" - entregar-se ao acaso, á sorte
"estar de maré" - estar bem disposto

"há mais marés que marinheiros" - outra ocasião virá (se vier). não hão-de faltar ocasiões. (ver Comentº de Bell)

"maré de azar" - momento ou período em que tudo corre ou parece correr mal
"maré de rosas" - momento de felicidade, período em que tudo corre bem na vida
"maré de sorte" - momento ou período em que tudo corre de feição, ocasião propícia
"outra maré" - outro dia, outra ocasião, futuramente
"remar contra a maré" - pensar ou agir contra o poder e a opinião dominantes

e para utilizações figuradas da palavra, dando-lhe o significado de "ocasião", "oportunidade", "momento", em que se pressupõe algum caráter cíclico, alternável e efémero.
e, ainda, no sentido de movimento massivo, como "multidão", "grande quantidade"

o engenho humano tem aproveitado a força das marés para vários fins. os moinhos de maré são uma dessas criações.
mas o nosso tempo trouxe outras marés. negras. os galegos que o digam.

maresia

"maresia" ou "marejada" (subst.) é "o cheiro típico do mar na maré vaza". há quem o considere um mau cheiro. a mim agrada-me o cheiro do mar, seja a maré a que for. até porque, como diz o povo, "gostos não se discutem".
variante (Gz.): "maruxia"

Segunda-feira, Junho 23, 2008

marulhar

"marulhar" (verb.) significa "revolver-se o mar fazendo ondas", "bravejar", "imitar os sons que as ondas do mar produzem".
"marulhar" (subst.) é o "ruído das ondas do mar", ou melhor: "a música do mar".

Quarta-feira, Junho 18, 2008

grelhar

"grelhar" (verb.) significa "assar, tostar ou torrar na grelha".

grelha (Pt., Gz. e Br.)

do lat. craticula, "pequena grade", "grelha" (subst.) é uma "pequena rede ou grade metálica sobre a qual se assa a carne ou o peixe ou se torra o pão". antigo instrumento de suplício que, felizmente para os vivos, foi sendo trespassado às empresas diabólicas do além, para tratamento das maldades reais ou imaginárias cometidas em terra firme. hoje em dia, é o instrumento de tortura de gestores, burocratas e chefes de serviço: "quadro , tabela ou esquema no qual se organiza informação disposta em colunas e linhas".
fig.: "cadeia", "prisão", "lugar com grades".
é, tamém, uma forma de fingir que se trata por igual todos os candidatos num concurso público, introduzindo no "quadro", "tabela", "esquema" ou "perfil" o critério do "sapatinho de cristal": concorrem todas as donzelas mas só ganha a Gata Borralheira.


graf. altern. (Gz.): "grella"

grelo (Pt., Gz. e Br.)

"grelo" (subst.) significa "folha ou ramo do nabo antes de florescer", "rebento, broto ou gema das sementes", "nabiça", "gomo", "bolbo", "renovo", "tubérculo". tamém significa os genitais femininos. nas festas académicas universitárias, é o distintivo, mais realista ou mais simbólico, dos quartanistas (Pt.).

grelar

"grelar" (verb.) significa "criar grelo", "espigar", "germinar"

Segunda-feira, Junho 02, 2008

rilhar

"rilhar" (verb.) significa "roer", "desbastar e comer coisas duras com os dentes", "murmurar enquanto se vai roendo ou comendo algo até aos ossos" .

rilha-boi (Pt.): planta silvestre leguminosa usada na medicina popular
rilha-cacos: insatisfeito, resmungão
rilha-chavos (Gz.): "avarento", "mesquinho", "tacanho"
Rilhafoles (Pt.) : convento oratoriano fundado em 1717, nacionalizado em 1834 e transformado em 1848 num manicómio, conhecido hoje por Hospital Miguel Bombarda. ao que julgo saber, o nome é de origem toponímica, designando um lugar próximo do Campo de Santana, em Lisboa. não me caiem os parentes à lama se alguém me explicar a origem deste nome.


graf. altern. (Gz.): "rillar"

zaragata

"zaragata" (subst. fem.) é um "desentendimento violento entre várias pessoas", "confusão/om", "desordem", "pequeno motim", "tumulto". quem nos ensinou esta palavra foram os castelhanos, pelo que é de supor que nisto de zaragatas eles conseguem ser ainda melhores do que nós (Gz., Pt. e Br).



imagem: blog.uncovering.org

Sábado, Maio 31, 2008

tribuna, tribuno, tribunal

"tribuno" (subst.) era o guia, chefe ou dirigente da tribo, cada uma das três partes do povo romano. exercia o seu cargo durante um determinado período, chamado "tribunado" ou "tribunato". superadas as tribos, "tribuno" passou a designar o "defensor dos direitos e dos interesses do povo". como se terá habituado a falar mais do que a fazer, "tribuno" passou a designar o "orador eloquente e popular", o "demagogo" - à letra: "o que leva o povo (atrás de si)".

"tribuna" (subst. fem.) era o lugar elevado, ou púlpito, usado pelos tribunos para falar à sua tribo. na Praça Vermelha, em Moscovo, ainda lá está o "lóbnoye myéstô" (fig.), um pequeno púlpito de pedra de onde os chefes, mais tarde os czares, falavam à multidão. hoje, "tribuna" é o lugar de onde falam os oradores, ou o palanque ou varanda onde se instalam as forças vivas do povo para assistir a desfiles, paradas, procissões ou manifestações folclóricas. originariamente, tribuna vem de tribunal, por apócope ou queda do l final - o que parece pressupor uma tónica grave, ou paroxítona.

"tribunal" (subst.) era o lugar em que se sentavam os tribunos ou chefes das três tribos de Roma. depois, passou a designar o estrado semicircular onde se sentavam os magistrados. depois, o conjunto dos magistrados e, agora, o lugar, o edifício ou a sala onde se debate e julga as questões de Direito.

imagem: Lobnoe Mesto , in: elpelao.com

tribo

"tribo" (subst. fem.), vem do lat. tribus, "a terça parte do povo romano" . por "tribo" entende-se "um conjunto de famílias com origem num tronco comum e que vivem numa mesma região". é, tamém, "cada uma das partes que formam um povo". "conjunto de clãs".
e, ainda, um elemento grego (tribe), que entra na composição de certas palavras para exprimir a ideia de "atrito" . exº: "diatribe".

as tribos quanto mais chegadas mais desgarradas. cada uma é o centro do mundo. e mesmo antes de se zangarem umas coas outras já vendem a alma ao diabo por superar as vizinhas. falam a mesma língua mas fingem que nom se entendem. o seu particularismo e o seu dialeto ou subdialeto são a Realidade e a Língua por excelência. são o mesmo grande povo mas metem-se debaixo do primeiro inimigo que lhes pareça forte o suficiente pra mandar em todas ou nelas próprias.
cando superaremos os nossos tribalismos?

imagem: www.peruvianembassy.us



Sexta-feira, Maio 30, 2008

atrancar

"atrancar" (verb.) significa "estorvar", "obstruir", "impedir a passagem", "atravancar". de "tranca".



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neste caso não há grafia alternativa.
apontar a grafia alternativa não indicia qualquer tipo de posição sobre a questão do Galego. essa indicação, onde existe, é uma forma de facilitar a leitura de textos galegos a quem não sabe que, com uma grafia ou com outra, a pronúncia é a mesma.

Quinta-feira, Maio 29, 2008

empancar (Pt-n)


"empancar" (verb.) significa "avariar (espontaneamente ou por ação de alguém)", "deixar de funcionar".
aplica-se a máquinas, aparelhos ou sistemas.
exº: "o meu carro empancou". "o rádio empancou", "a máquina de lavar empancou", "o blogue empancou".
embora não encontre este sentido do verbo nos dicionários - ou eu não tenha o dicionário onde o encontre -, ele é usado correntemente no Entre-Douro-e-Minho - pelo menos.
noutras aceções, encontra-se "empancar" com o significado de "obstruir", "vedar", "atravancar", "embarrar".



imagem: dn.sapo.pt

Quarta-feira, Maio 28, 2008

ralar

"ralar" (verb.) significa "reduzir a pequenas migalhas", "triturar", "fazer passar algo pelo ralador".
há o "pão ralado" e a "cenoura ralada", por exemplo.
tamém pode significar "importunar", "afligir", "atormentar alguém".

"ralar(-se)" (verb. r.) significa "preocupar-se", "afligir-se", "inquietar-se".

expressões: "não me vou ralar co isso": não vou dar importância, não me vou incomodar co isso

" f. é um não-te-rales": é um indolente, um preguiçoso; é uma pessoa calma, tranquila, sem stress.

na Galiza pode haver alguma confusão com "ralhar", embora distingam os dois grupos de significação.

tamém por cá (Pt.) se ouve "relar" por "ralar". mas depois a variante "relar" empanca nas flexões do verbo.

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uma nota: este blogue não segue nenhum livro ou guia de referência. os livros fazem-se a partir do real, nom é a realidade que se faz a partir dos livros. é por isso mesmo que este blogue cá está. e é isso que o livra de ser um blogue inútil.
nom dou lições sobre a língua galega. os galegos, portugueses e brasileiros é que me ensinam a mim. e assim lhes pago.
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Petição (ver aqui)


Terça-feira, Maio 27, 2008

ralhar

"ralhar" (verb.) é uma coisa que muita gente gosta de fazer coas pessoas erradas: a mulher, o marido, os filhos. alguns começam a ralhar logo que namoram. e a minha questão é por que tanta gente persiste num comportamento contrário à lógica das coisas? ralha-se co inimigo? co vizinho que não nos liga nenhuma? com quem nos fez realmente mal? não, não é muito prático, não temos lata pra isso e a coisa pode dar pra mal a curto prazo. é preferível ralhar em casa co'aqueles que nos aturam, até que deixem de estar pra nos aturar lá mais prá frente. e aí, então, passamos a ralhar sozinhos e a assustar-nos a nós mesmos.

"ralhar" significa "repreender em alta voz", "berrar", "barafustar", "descarregar os humores em cima de alguém, em alta voz e com maus modos", "censurar desmesuradamente", "criticar", "ameaçar aos berros", "importunar", "molestar com berros e maus modos".
refrão: "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão". mas tamém há o outro: "casa que não é ralhada nom é bem governada". o que espelha bem a nossa vontade de ralhar pela primeira razão que nos der jeito.

quem ralha comporta-se à maneira dos primatas antropóides, como o gorila, que mete medo co medo que tem.
bom, vocês sabem, nisto de afetos, a coisa dá para onde menos se conta. há terras, sobretudo no sul de Portugal, onde "ralhar" significa "cavaquear", "conversar", "bater um papo legal", "conversar amenamente". aí eu não me importaria de ralhar ou ser ralhado.

graf. altern. (Gz.): "rallar"

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grande berreiro vai no Chuza! por via desta postagem. que é Galego, que nom é, afinal que sim.
não entenderam o blogue. que nom fala de "Galego", de "Português", ou "Brasileiro", sei lá. este é um blogue da nossa Língua comum. o que nom há numa beira pode haver na outra. e ficamos todos mais ricos. nom entro em bairrismos, regionalismos e particularismos. isso pertence ós etnólogos, antropólogos, folcloristas e assim. uma aperta a Calidonia.
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imagem: soliletras.wordpress.com

Segunda-feira, Maio 26, 2008

Portugal na Commonwealth (ver aqui)

Sábado, Maio 24, 2008

manifesto galego pela Língua

Manifesto da Associaçom Galega da Língua (AGAL) polos direitos lingüísticos individuais e colectivos dos galegos:

1.- Denunciar as políticas de substituiçom lingüística que levamos sofrendo durante os últimos 25 anos, disfarçadas de falsa normalizaçom lingüística.

2.- Exigir o reconhecimento da condiçom internacional da nossa Língua, que com a variedade própria das línguas internacionais é falada por centos de milhões de pessoas no mundo, quer como língua nativa, como é o caso dos galegos, quer como língua oficial de oito Estados, ou como língua cada vez mais estudada em todo o mundo polas vantagens das línguas internacionais.

3.- Denunciar as autoridades e administrações públicas que, em vez de garantirem os direitos lingüísticos e democráticos do Povo galego, discriminam e perseguem aqueles que nom aceitam a deriva de substituiçom lingüística e dialectizaçom castelhanizadora do Galego que o torna desnecessário no seu próprio País.

4.- Apoiar a iniciativa aprovada no Parlamento por unanimidade reclamando a recepçom das rádios e televisões portuguesas na Galiza, que pedimos que se efective desde já e que nom fique numha simples declaraçom sem vontade real de a levar a cabo.

5.- Denunciar também os grupos extremistas que, protegidos por certos sectores políticos, atacam o direito e a liberdade de vivermos na Galiza em galego.

6.- Finalmente, apelamos a toda a sociedade para exigir umha mudança das políticas que tornam a Língua desnecessária e dialectal, como forma de impor o uso do castelhano, por políticas que garantam os nossos direitos lingüísticos individuais e colectivos, assegurando que o Galego continue a ser umha língua extensa e útil.

berro

"berro" (subst.) significa "grito", "brado", "som instantâneo, penetrante e forte, seja de pessoa ou de animal".

"berro" e "grito" são sinónimos, se bem que "berro" seja um grito mais animal, mais provindo das forças da natureza que temos dentro de nós. por isso, entre "O Berro de Munch" - como dizem os galegos - e "O Grito de Munch" - como se traduz por aqui -, prefiro o "Berro".

expressão derivada: "dar o berro" (Pt.): "acabar", "morrer", "avariar sem conserto possível".

nome do quadro de Edvard Munch em Norueguês. "Skrik" ("berro", "grito")

berreiro




"berreiro" (subst.) significa "gritaria", "griteiro", "choro continuado e intenso, como o das crianças", "choro ou grito a várias vozes".




imagem: health-in-action.org

berrar


"berrar" (verb.) significa "gritar", "falar muito alto", "bradar", "levantar a voz acima do que é costume", "chorar intensamente, como as crianças". "cantar demasiado alto". "ralhar", "discutir" (as mulheres umas coas outras, os homes coas mulheres e umas e outros cos filhos). ver Comentº de Caperuzita.


embora berrar seja uma estratégia eficaz para a criança obter aquilo que quer, há o refrão que nos diz: "ovelha que berra bocado que perde".


Quinta-feira, Maio 15, 2008

alcunha

"alcunha" ou "alcunho" (subst.), do árab. al-kunia ("o sobrenome"), significa "apelido", "sobrenome". epíteto. nome mais ou menos ridículo, desagradável ou até arbitrário, inspirado em certas características físicas, morais, familiares ou de origem pelo qual o indivíduo, ou mesmo toda a família, é conhecido no seu meio social. é frequente que a alcunha seja assumida, passando a fazer parte do nome do próprio e da sua descendência. exºs:

Alemão
Alfaiate
Aranha
Arroba
Arrobas
Bacalhau
Banaco
Barata
Batata
Batateiro
Bem-Haja
Bezerra
Bicho
Bicudo (Aç.)
Bispo
Boa-Alma
Boavida
Bogalho - variante de "Bugalho"
Bom
Bomtempo ou Bontempo
Borrego
Botas
Branco
Branquinho
Bugalho
Cabaço

Cabeça-Negra - em Alemão existe sob as formas Schwartzkopf e Schwarzkopf

Cabrita
Caçador
Cação
Caiado
Cambalhota (Br.)
Camelo
Canário
Caraça
Caracol
Carpinteiro
Carriço
Caseiro
Catorze - ver Quatorze
Cavaco
Ceboleiro (Gz.)
Charrua
Chicharro
Coelhinho
Coelho
Comprido
Contente
Cravo
Curto
Delgado
Ervilha

Escumalha - por incrível que pareça, conheço gente com este sobrenome oficial. terá sido castigo?

Espadeiro
Espanhol
Esparteiro
Estreito
Faneca
Feijão
Ferreiro (Gz.)
Figo
Formiga
Francês
Gago
Gordo
Grilo
Lampreia
Laranjeira
Laranjeiro
Laranjo
Lavrador
Leão
Leitão
Ligeiro
Lindeza
Linheiro
Magro
Malheiro
Malva
Manata
Marceneiro
Matadinho
Melancia
Meleiro
Milheiro
Mil-Homens
Mineiro
Moleiro
Monteiro
Nabeiro
Nabinho
Nabo
Pachancho
Panão
Paneira
Pardal
Patacas
Pato
Pé-Curto ou Pècurto
Peixe
Peixinho
Peixoto
Pelicano
Penetra
Perfeito
Pestana
Pimenta
Pimpão
Pinto
Pisco
Polaco
Pombas
Pombo
Preto
Quadrado
Quatorze
Queimadela
Queimado
Querido
Rambudo (Br.)
Raposo
Rasteiro
Rato
Redondo
Robalo
Rola
Rosa
Rouxinol
Ruivo
Salgado
Sanhudo
Sapateiro
Sardinha
Seguro
Seis-Dedos ou Seisdedos (Pt., Gz. e Le.)
Todo-Bom
Tourinho ou Touriño (Gz.)
Touro
Videira
Videiras
Vilão
Vinagre
Vinagreiro
Violas

outras alcunhas, mais arbitrárias, pessoais ou injuriosas, morrem com o dono:

Abelhinha
Baião (Br.)
Barbas
Bareja - ver Vareja
Barriga-de-Chumbo*
Bebe-Água - em Itália existe o sobrenome Bev'Acqua
Besunta
Bigodes
Bin Laden (Br.) - por ser muito parecido com o original
Biriba (Br.) - ver Comentº Alacazum
Bolinha-de-Sabão* (Pt.)
Borrega*
Bucha
Cagalhona ou Caghallona* (Gz.)
Caga-Libras
Caga-no-Paninho ou Caghanopaniño (Gz.)
Caga-Tacos
Caga-Tosse
Capa-Porcas
Caramuru (Br.)
Carôcho
Carriça*
Cascarravias
Cascavel (Br.)
Catatua
Cebola
Cèguinho
Cento-e-Vinte - ver Comentº de Nóbrega
Ceroulas (Pt. e Br.)
Charuto
Cheio-de-Sono - por parecê-lo
Cheira-Dinheiro
Chico-Moleza (Br.)
Chico-Triste (Br.)
Chito
Chòpinhas
Chupeta (Br.)
Ciroilas - variante de "Ceroulas"
Coça-na-Vrilha
Come-e-Dorme - por não fazer mais nada
Corta-Pano - este era alfaiate/sastre
Cova (Br.) - ver Comentº de Alacazum
Coveiro
Cu-de-Chumbo
Cu-de-Lobo
Cu-de-Pato

Diabo - porque tinha um feitio excessivo, tanto para brincar como para a zaragata

Escalda-Ferros - este era ferreiro
Fuínha
Gaga*
Galega*
Gavião - alguém que é calado mas vê tudo
Gira
Grelhas - ver Comentºs
Javardo
João-Nhá-Mãe (Br.)
Labita
Labreca
Lampião
Lapachana
Lesma
Lula (Br.)
Macaco - ver Comentºs
Manca-Mulas
Manel-do-Laço
Maneta
Mão-de-Pilão
Mão-Morta
Marmita
Marreca*
Marreco
Mata-Burros
Mata-Carneiros
Mata-Cristos
Meia-Bola
Meia-Dose - designa um homem de baixa estatura
Meia-Foda - designa um homem de baixa estatura
Meia-Leca - designa um homem de baixa estatura
Meio-Quartilho
Melra* - designa uma mulher muito feia
Merdas
Môcho
Morr'-ó-Sol
Mosca-Morta
Muda*
Mudo
Nhonhas - forma aferética de Panhonhas?
Padreco
Padre-Nosso
Padre-Santo
Pai-Home - por ser pai de um neto
Panhonha - por ser "desajeitado", "atado", "lerdo", "sem despacho"
Panhonhas - ver Panhonha
Papa-Notas
Pata*
Patacão
Pé-Leve
Pica - por ter um nariz comprido, em forma de picareta
Pica-Pau
Pichas
Pinguinhas
Pirata
Pirrêta
Poi'não - por dizer muitas vezes "pois não"

Pombinha* - por ter um jeito de andar aos saltinhos, como as pombas

Porqueira - por levar o porco a visitar as porcas da região
Portanto - por estar sempre com o "portanto" na boca
Ratão
Repolho
Ruço
Sabiá (Br.)
Sapo-Concho
Sem-Ossos - por levar tanta pancada que os tinha todos moídos

Sobe-e-Desce - conheci um que era coxo e bêbado, pelo que subia e descia pelas duas razões

Sono
Tachas
Taínha
Tem-Sede - dizem que morreu com ela
Tòla
Tonho-Torto (Br.)
Três-Missas
Trinta
Troca-o-Passo
Vara-e-Meia
Vareja
Vint'óito
Zarolho
Zé-da-Banana - ver Comentºs
Zé-da-Porra
Zé-do-Caixão (Br.)
Zé-Gato
Zé-Rodinha (Br.)

graf. altern. (Gz.): "alcuña".
coexiste na Galiza com "alcume" (ver Comentº de Ictioscópio).

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* alcunhas femininas. as alcunhas femininas correspondem habitualmente a mulheres solteiras (já fora da idade de casar) ou sem ligações familiares.
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(sobre alcunhas, nomes, sobrenomes e apelidos de origem geográfica, ver aqui).

Quarta-feira, Maio 14, 2008

acanhado

"acanhado" (adj.) significa "envergonhado", "pouco despachado", "com falta de desembaraço", "morcão" ou "morcóm", "pouco sociável", "apertado" (um espaço).
graf. altern. (Gz.): "acañado".

acanhar-se

"acanhar-se" (verb. ref.) significa "envergonhar-se", "encolher-se" (fig.), "acobardar-se", "ter medo de".
graf. altern. (Gz.): "acañarse"

Segunda-feira, Maio 12, 2008

roupa (Pt., Gz. e Br.)

"roupa" (subst.) é "tudo o que se usa para vestir...e para despir", "vestimenta", "vestes", traje"; "peças de bragal", "conjunto de panos e coberturas de cama e de mesa".

à roupa liga-se um grande conjunto de ditos e expressões idiomáticas (Pt.), de que destaco:

isto não é roupa de franceses: o mesmo é dizer, isto não é da Joana, isto não é de todos, isto não está à disposição de quenquer. expressão que deriva dos despojos das tropas francesas desbaratadas na Guerra Peninsular dos inícios do século XIX.

lavar roupa suja: expor em público divergências e ressentimentos internos da família, do casal, do partido, da sociedade, etc.

chegar-lhe a roupa ao pêlo: bater em alguém, dar-lhe uma coça.

roupa de ver a Deus: roupa que se usa em ocasiões especiais, traje domingueiro

roupa velha: comida feita com as sobras da véspera. no Norte de Portugal, é o prato que se come no dia de Natal feito com os restos da Consoada.

é fraca roupa ou pouca roupa: alguém que é de baixa condição, alguém que não presta.

à queima roupa: de muito perto.

e o refrão:
dá Deus o frio conforme a roupa, mas dá mais a quem tem pouca.

Domingo, Maio 11, 2008

consulta, consultar

aqui está uma palavra curiosa.
"consultar" (verb.) significa "pedir a opinião", "pedir parecer", "pedir conselho", "submeter-se a um exame e diagnóstico médico".
a "consulta" é o acto de "consultar" o perito entendido na matéria em questão.
em termos políticos, "consulta" é a recolha da opinião dos partidos pelo Presidente ou pelo Rei.
"consulta popular": referendo, eleição.


em Portugal, fruto de um Serviço Nacional de Saúde excessivamente pródigo e permissivo, a "consulta" médica banalizou-se ao ponto da inversão do sentido intencional. hoje, é o médico que consulta os doentes, que faz não sei quantas consultas por dia, por mês ou por ano como prova da sua produtividade.
em Portugal é possível ouvir-se diariamente que "fui consultado pelo médico em menos de cinco minutos". ou "vou até ao Centro de Saúde, ver se o meu doutor me consulta". ou ainda: "ó doutor, consulta-me hoje?"

em Portugal, o doente é que sabe. ele não consulta ninguém, é "consultado".

seja como for, não me canso de realçar o quanto tenho aprendido com os meus doentes.

aluguel, aluguer

"aluguel" ou "aluguer" (subst.) é o preço contratado que se paga pelo uso de uma coisa que não é nossa: casa, carro, roupa de cerimónia, etc. quando o tempo de contrato é prolongado também é conhecido por "renda" (exº: renda de casa").
a forma "aluguel" usa-se em certas zonas do norte de Portugal (distrito do Porto, por exº.) e no Brasil. na Galiza, coexistem as formas "alugueiro", "aluguer" e "alugo". ver Comentº de Fer.
o plural da forma "aluguer" é "alugueres", enquanto o plural da forma "aluguel" é "aluguéis".

o verbo "alugar" usa-se nos dois sentidos: o sentido de quem cede de aluguer e o sentido de quem toma de aluguer. o contexto decide.

Quinta-feira, Maio 08, 2008

coitado, coitadinho

"coitado" (adj.) significa "infeliz", "mísero", "desgraçado". como subst.: "cornudo".
o diminutivo "coitadinho" agrava a pena e a condena. e por aférese piora, que fica apenas "tadinho".

bebedeira

"bebedeira" (subst. fem.) é o mesmo que "borracheira", "embriaguês", "torcida", "piela", "nassa", perua".
nesta época festiva entre estudantes, apanham-nas eles e elas de caixão à cova.
três por vida está bem: uma boa, outra má, outra para não repetir.

que Dionisos nos desvarie de vez em quando para que Apolo nos não enlouqueça de tanta lucidez.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

trabalho

com tempo e falta de imaginação, a gente até acaba por gostar do trabalho. mas não se nasce com vontade e prazer de trabalhar. leva mais de 20 anos ou mais a criar-lhe o gosto. e mesmo assim, é uma pena que não se tenha nascido príncipe ou princesa. dos contos de fadas, já se vê, que os príncipes de agora já não tenhem encanto nem surpresa.
"trabalho" (subst.) vem do lat. tripalliu- ("três estacas"), instrumento de tortura só recomendável para escravos mal agradecidos. como o trabalho passou de um castigo de escravos a destino de todos nós é um mistério profundo. será que nos dão a liberdade c'uma mão e nos fazem escravos co'a outra?
quem consegue alistar-se pra trabalho diz que tem emprego, e quem está ao destino natural anda por aí a lamentar-se por estar desempregado.
ao que chegaram os homes e as mulheres...

há trabalhos para todos os gostos. a começar pelo trabalho de parto.
e se há quem diga que o trabalho dá saúde, outros há que dizem, se o trabalho dá saúde, melhor é que trabalhem os enfermos.


assim como assim, se não se importam, prefiro o trebelho. é que nem há Medicina do Trebelho, mas há Medicina do Trabalho.


(imagem: Yann Minh)

Domingo, Maio 04, 2008

augúrio, agoiro

"agoiro" ou "agouro" (subst.) deriva do lat. auguriu-. à letra, o seu significado assenta na ideia de "observar", "ver com olhos de ver". uma raiz indoeuropeia comum, "ok", liga "augúrio", "agoiro", a "olho". nas sociedades ditas por nós, arrogantemente, primitivas, a capacidade de "ver com olhos de ver" os mais pequenos indícios do ambiente surpreende os antropólogos que as visitam.
na época romana, o auguriu resultava da observação do voo ou do canto das aves.
"agoiro" significa "augúrio", "presságio", "vaticínio", "prognóstico", "profecia". em geral, hoje, tem o sentido de "previsão supersticiosa".
como com o bom agoiro podemos nós bem, a preocupação de quem procura o vaticínio dos áugures é, sem dúvida, saber do mau agoiro, das previsões desfavoráveis ou das disposições tendencialmente negativas. daí que "agoiro" signifique, antes de mais nada, "mau agoiro".
como não influenciamos grande coisa nas coisas que influenciam a nossa vida, os novos áugures estão aí e tenhem casa cheia. cartomantes, astrólogos e assim por diante, "lêem" nos astros, nas cartas, nos cristais e noutras coisas mais os sinais dos tempos que interessam a quem depende do êxito de investimentos incertos.
com o passar do tempo, a degradação evolutiva levou a que o augúrio ou vaticínio em si mesmo tivesse mais importância do que a presumida observação que o sustenta.
daí que quando alguém nos diz uma palavra que indicie algo que gostaríamos de evitar, respondemos de imediato: longe vá o agoiro!

Terça-feira, Abril 29, 2008

fazer ouvidos de mercador

"fazer ouvidos de mercador" significa "fazer orelhas moucas", "fazer de conta que não se ouviu", "não ligar ao que dizem".
o mercador era alguém que se dedicava a vender bens ou objetos, viajando de terra em terra ou de um país para outro. o seu êxito devia mais àquilo que dizia aos clientes do que àquilo que os clientes lhe diziam. não era bom irritar-se ou zangar-se ou, simplesmente, permitir que os ânimos aquecessem. era o que hoje diríamos uma "postura profissional", de uma impassibilidade simpática, quanto baste para agradar. porque agradar demais também não é boa cousa.
enfim, manhas de persuasão.
está tudo na mesma.
mudaram os sítios onde se fazem as cousas
mas os homes não mudaram nada.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

celular ou telemóvel

há meia dúzia de dias atrás, um diretor de um jornal de referência nas bancas portuguesas perguntava: - com o Acordo Ortográfico iremos dizer "celular", ou "telemóvel"? e pronunciava "cèlular", ostensivamente. o seu interlocutor, talvez surpreendido pela estupidez da pergunta, fez ouvidos de mercador e prosseguiu calmamente o que estava dizendo. eu acho que devia ter respondido.
em primeiro lugar, um acordo ortográfico diz respeito a como se escreve e não a como se fala. e nesse aspeto, nem "celular", nem "telemóvel" vão ter grafia diferente.
em segundo lugar, a pergunta tinha a manha de sugerir que, uma vez que os brasileiros dizem "celular" ("cèlular") e os portugueses dizem "telemóvel" (tèlèmóvel"), talvez uns e outros não falem bem a mesma língua.
acontece que o primeiro nome que a coisa teve em Portugal foi, precisamente, "celular" - palavra que se refere ao modo de transmissão e funcionamento da coisa. só depois foi criada essa aberração linguística que é o "telemóvel". aberração porque é um neologismo híbrido do grego (tele - ao longe, à distância) e do latim (mobilis - movel) cujo senso é nulo: "móvel à distância".

a pretensão de que chamar coisa diferente ao aparelho significa diferença linguística só é possível na mentalidade lisboeta, que não tem mundo à volta.
ainda não vai há muito tempo, ao ir de Bordéus a Lyon por Clermont-Ferrand, encontrei três nomes para a cousa: num lado era "mobile", noutro "celulaire" e noutro, ainda, "portable". todos falavam um francês irrepreensível e todos sabiam a que coisa cada qual se estava a referir.

Sexta-feira, Abril 25, 2008

você

"você" (pron.) deriva da expressão cerimoniosa "Vossa Mercê". a marcha da evolução simplificou a distância de tratamento e a respetiva expressão, fazendo de toda a gente "sua mercê". e está certo. as formas evolutivas estão todas em uso, desde o mundo rural ao mundo urbano e suburbano.
a distância de tratamento é tanto mais próxima quanto mais aferética é a forma evolutiva usada:

vocemecê - etimologicamente, a grafia correta seria vossemecê
vosmecê (Br.)
vomecê
você
ocê (Br.) - ver Comentº de Alacazum


na Galiza coexiste com "vostede" e "vosté", mestiçagens entre o "vossa mercê" da nossa gente e o "vuestra merced" de Madrid e arredores (ver Comentº de Calidonia).

no Brasil, "você" é todo o mundo e todo o mundo é "você".
o que cê acha?

Quarta-feira, Abril 23, 2008

muxoxo (Br., Ang.)

"muxoxo" (subst.) deriva diretamente do Quimbundo (Ang.). é um ruído seco, um estalido, que se faz com a língua e os lábios. habitualmente, acompanha-se da interjeição ah! serve para exprimir desprazer, contrariedade, desprezo ou desdém. mas, como nessa coisa de afetos se junta o norte e o sul, "muxoxo" vira "carinho" de acordo com a intenção. como diz o refrão, "quem desdenha quer comprar".
muxoxo tamém se usa no sentido de "beijo repenicado", sobretudo na forma aferética "xoxo" (Pt.).
tamém significa "desabafo", porque a contrariedade e o desprazer às vezes precisam de sair.
quanto à grafia, vou por "muxoxo". etimologicamente.

Segunda-feira, Abril 21, 2008

dor (Pt., Gz. e Br.)

"dor" (subst. fem.) "sensação desagradável, aflitiva e pungente em qualquer parte do corpo", "sofrimento físico, psíquico ou moral", "mágoa", "luto", "pesar", "dó".

há vários tipos de dor:

dor d'alma - "pena", "dó", "compaixão"

dor de burro - "dor que os atletas da maratona podem sentir durante a prova e que frequentemente os leva a desistir"

dor de corno - ver "dor de cotovelo"
dor de cotovelo - "ciúme", "inveja", "despeito"

dores de barriga - "estado em que está o estudante nas vésperas de um exame"

dores de parto (ou apenas "dores")


sobre a dor pesar, a dor aguda da saudade, a dor de uma perda súbita, a dor revolta, não resisto a transcrever, pela sua eloquência , este anúncio fúnebre de um jornal de Angola:

"A morte doi e doi muito, querido cunhado. Aquele maldito camião, carregado de farinha de trigo, saiu da sua faixa para nos deixar a dor e o luto naquela manhã do passado dia 15.11.97.
Às 8,40 deixaste a Dadinha, tua noiva, na Unidade Operativa de Luanda, às 8,50 deixaste o Cadete na Polícia de Intervenção Rápida e mentiste que irias só até ao Kassequel. Afinal foste morrer na maldita estrada de Viana às 10H00. Foste muito ingrato, Zacarias. Por que é que não avisaste na sexta-feira que estavas a despedir-te de nós? Se morrer é assim, deixa estar cunhado.
Que a sua alma descanse em paz".

Sábado, Abril 19, 2008

cafuné

"cafuné" (subst.) significa "uma pequena coçada na cabeça de alguém, remexendo-lhe no cabelo, como quem o quer acalmar ou adormentar", "carinho", "carícia".
me faz um cafuné, que eu gosto.

descontinuar

este intolerável verbo vem tamém do inglês, by Lisbon. faz parte do fastidioso discurso dos congressos científicos e da maioria dos delegados de informação médica. pretende significar "interromper" (uma medicação, um programa terapêutico), "suspender" (um tratamento), "parar" (um processo em marcha).
macacos me mordam se era preciso ir buscar esta preciosidade ao inglês...
mas é ver como dizem "descontinuar" com aquele ar de quem bebeu diretamente na fonte da sabedoria...

de todo

"de todo" (loc. adverb.) é, hoje em dia, um ícone da pior lisboetice. usada por pseudo-intelectuais aborrecidos de serem portugueses, é a transcrição directa do "at all" inglês.
significa "de modo nenhum", "não", "absolutamente não".
soa mal. não vou à bola com ele. de todo.

na nossa Língua, aparece em expressões como "de todo em todo" ou em expressões do género "f... não é parvo de todo", "esta sopa não é má de todo", exprimindo alguma incompletude. outras vezes, pode significar "totalmente", "completamente", como na expressão "f... é doido de todo".

Terça-feira, Abril 15, 2008

ajudar

"ajudar" (verb.) significa "auxiliar", "socorrer", "acudir"; "assessorar", "adjuvar"; "ir ao encontro das necessidades ou problemas de alguém".

graf. alternat. (Gz.): "axudar"

ajudar é uma necessidade humana. ver o outro em dificuldade ou carência ou problema sério é uma tentação das grandes. ajudar faz um bem daqueles à nossa autoimagem, sobretudo àquela autoimagem que vamos alimentando da imagem que os outros tenhem de nós.

mas, às vezes, a ajuda toma caminhos imprevistos.
recordo muitas vezes o bugueiro Pedro, que me levava a passear nas dunas de Cumbuco. "com emoção, ou sem emoção?" absolutamente indiferente: era sempre emocionante! fizemos amizade bem cedo. quando podia, quando o búgui não tinha clientes, o Pedro aparecia: "doutô, quer vir em Fortaleza?" outras vezes: "doutô, quer dar um passeiinho de búgui - não paga nada - quer ir comigo visitar um amigo meu, na mata?" e eu ia, é claro. eu não resisto às tentações de verdade. e lá íamos nós, sempre a falar, sempre a ouvir as estórias da aldeia de Caucaia, onde o Pedro tinha sua casa, mulher, filhos, galinhas caipiras, cachorros e vizinhos. uma aldeia que merecia bem o seu nome nativo: "Caucaia": "clareira na mata". uma mata negra e muda depois do pôr do sol.
até que notei, dias depois, que o Pedro andava encabulado, tristonho, cara de sofrido. não era o mesmo Pedro. aí, eu perguntei: "- Pedro, o que é que se passa com você?"
"- sabe, doutô, eu todas as noites tenho que ir no aeroporto pegar o pessoal que chega no vôo das 4 da manhã. quando eu vou prá cama, eu tenho medo de não acordar na hora e tem noites que nem durmo".
senti uma ternura imensa pelo nativo Pedro. e disse: "Pedro, fique tranquilo, eu vou resolver seu problema!"
no dia que pude, dei um pulo em Fortaleza. numa loja de fotografia eu vi um despertador lindo, moderno, de pilhas, aquela tentação. pensei: vou oferecer ao Pedro. vai ficar contente. é caro, é bonito, ele não vai esquecer mais esse momento. e se bem o pensei melhor o fiz. apareci em Cumbuco com um embrulho bem bonito. o Pedro abriu. ficou radiante, feliz, não sabia muito bem onde esconder a sua gratidão. e eu achei barato os 20 euros para tão encantadora alegria.
no dia seguinte o Pedro andava radiante, solto, dormido, feliz.
mas os dias passaram e o Pedro fechou de novo. andava esquivo, fugia do contacto, cumprimentava e sumia. pensei que andasse cheio de trabalho e solicitação. mas esse estranho comportamento persistia. até que decidi tirar a limpo a situação. "Pedro, você anda meio fugido da gente, quer ver que o despertador não funciona mais?.." e respondeu, como se desse um pulo: "funciona, sim, doutô, funciona muito bem. eu agora durmo bem e acordo na hora..."
dei uma resposta de silêncio incrédulo. o Pedro entendeu na minha cara e explicou o que faltava explicar:
"- só tem um problema: quando eu acordo, todo o mundo acorda!"

Sábado, Abril 12, 2008

família

do latim famulus, "escravo", a família era o conjunto dos trabalhadores servis e escravos que viviam debaixo do mesmo teto.
a evolução semântica seguiu a evolução dos usos e costumes. "família" foi o núcleo mais pequeno da gens (gente, tribo, pessoas ligadas a um antepassado comum pela linha masculina). foi o conjunto das pessoas de uma casa. foi tamém uma linhagem, um património e um acervo de usos e costumes que se mantinham ligados por laços de sangue e tradição.
podia ser qualquer grupo que se unia por interesses, crenças, propósitos ou atividades comuns.
o traço distintivo da "família" era a afiliação e o desempenho de atividades gratuitas.
hoje, reduzida praticamente à monoparentalidade e à efemeridade, a família dos parentes de sangue está em declínio. as afiliações e atividades gratuitas estão sendo substituidas por novas gerações multidisciplinares de profissionais específicos.
assiste-se também a uma insidiosa emergência de "famílias de afeto", com todos os inconvenientes dos afetos: entusiasmo, efemeridade, rotura e abandono.

Domingo, Abril 06, 2008

viajante

encontrei na net um pedido de tradução de "viajante" para castelhano.
como não gosto de deixar ninguém na ignorância, aqui vai o meu contributo.
"viajante" (subst.) é "aquele que viaja" (real , metafórica ou simbolicamente), "aquele que se faz transportar de um lugar para o outro" (real ou imaginário), "aquele que faz da vida uma viagem", "peregrino".
como atividade profissional, é "aquele que viaja para promover e vender produtos" (exº: "caixeiro-viajante").

variante: "viajeiro" (Gz.). graf. altern.: "viaxeiro".

já agora, em castelhano: "viajero".

Domingo, Março 30, 2008

migalha

"migalha" (subst. fem.) significa "coisa pequena", "fragmento muito pequeno de pão", "frangulha" (Gz.).
é claro que neste mundo uns comem o pão e outros as migalhas. e outros nem as migalhas comem.
de coisa tão miúda ainda se consegue encontrar um diminutivo: "migalhinha"

frangulha (Gz.)

"frangulha" (subst. fem.) significa "migalha", "fragmento muito pequeno de pão", "porção minúscula de alguma coisa".
graf. altern.: "frangulla".
existe o diminutivo "frangulhinha" para frangulhas muito pequenininhas.
variante: "faragulha". graf. altern.:"faragulla". ver Comentº de Compostela Dailyphoto.
a faragulhação da Língua é um risco que os falantes deviam temer.

debicar

"debicar" (verb.) é o mesmo que "comer pouco", "provar aqui e ali a comida", "comer bocadinhos de um ou mais pratos de comida".
mais próprio das senhoras com a mania das gorduras e do colesterol, que vão debicando sempre enquanto falam dos malefícios do que comem.

Sexta-feira, Março 28, 2008

seica (Gz.)

"seica" é um daqueles advérbios tipicamente galegos, embora não tanto quanto isso. se usarmos aquela expressão dubitativa sei que (ou seique?...), usada no Norte de Portugal, chegamos ao "seica" com aquela naturalidade que nos une.
"seica" significa "talvez", "creio que...", "quem sabe...", "sei que..."

o Comentário de Calidonia explica tudo em duas palavras...

Quinta-feira, Março 27, 2008

ponher (Gz.)

"ponher" (verb.) é variante de "pôr", verbo que está sistematicamente sendo arredado das falas e das escritas "bem", em troca pelo adocicado verbo "colocar". que não é a mesma coisa.
por mim raramente "coloco", quase sempre "ponho". é demasiado delicado, queque mesmo, colocar onde apenas há que pôr. gosto do "ponher". está presente nas flexões do verbo "pôr": "eu ponho", "eu punha, tu punhas, ele punha". e se eu "punhesse" alguma coisa cando andava na escola, chamavam-me labrego e cousas piores. coitados!
mas já nem o "pôr" lhes serve. agora é "colocar".
espero não ter que vir um dia a aturar o espetáculo do "colocar do sol" ou assistir à cena das galinhas "colocando" o ovo.

graf. altern.: "poñer"

recuncho (Gz.)

"recuncho" (subst.) significa "recanto", "cantinho", "refúgio", "esconderijo", "lugar recatado".
diminut.: "recunchinho". graf. altern.: "recunchiño".

ver achega de Calidonia

Domingo, Março 23, 2008

chuço

"chuço" (subst.) significa "espeto" (do jogo do espeto ou do chuço), "alfaia ou instrumento aguçado, de madeira ou de ferro".
ao diabo é costume botar-lhe um chuço na mão, com o que se divertiria a infernizar as almas dos pobres pecadores. custa-me a crer. afinal, os pecadores só fazem o que o diabo quer. por que haveria o diabo de tratá-los mal - e à chuçada?

Sexta-feira, Março 21, 2008

galhofa

"galhofa" (subst.) significa "risada", "alegria", "fanfarronice", "gozação"., "brincadeira ruidosa".
variante "galhoufa" (Gz.).

chuçar

"chuçar" (verb.) significa "espetar", "cravar", "picar", "enfiar um pau ou uma palha na entrada de uma toca para fazer sair o bicho (o grilo, por exº)". ver Comentº de Fer.

cando íamos ós grilos e botávamos a palheira na toca para o fazer sair, era costume cantar uma lenga-lenga:

"grilinho sai sai,
teu pai à porta,
ladrões na horta,
c'uma faca de agulhão
que te fura o coração".

e se o bicho não falava a nossa língua ou teimava em não sair, era vencido finalmente com uma mijada na toca.


graf. altern. (Gz.): "chuzar".